A metáfora é a figura de linguagem do populismo. Quando um político compara a nação a uma família, onde ele, de certa forma é o pai que zela por todos, ou quando vê o ato de governar como um jogo de futebol bem disputado e a economia como uma continha de orçamento doméstico, ele está prestando um desserviço ao povo, ao despolitizá-lo. Na verdade, na arte retórica a metáfora tem sido teatralmente usada para simplificar problemas complexos, trazer ao nível lingüístico do receptor uma imagem que traduza o discurso. Funciona bem, e em qualquer curso de persuasão comunicativa será indicado seu uso, pois ela, a metáfora, aproxima o discurso e, consequentemente, conduz o raciocínio para uma solução lógica de identificação com a cena. Como não concordar que é preciso tomar um remédio amargo, mas que cura um problema grave de saúde?
Ora, o que a metáfora esconde é o contexto, as circunstâncias. Nenhuma empresa, ou nação pode ser uma grande família, já que como bem apontou nossa querida professora Maria Aparecida, uma família não demite seus membros quando entra em crise. Pior ainda, ao emprestar emoção a um jogo racional, conduz o debate político para a arena passional, para a cumplicidade em que os aliados são “meus amigos” e a amigo se deve lealdade etc. A técnica retórica consiste em falar com tanta veemência seu texto que o próprio orador e a própria platéia passa a acreditar nele, porque suas lágrimas não podem ser falsas, sua expressão denota sinceridade, como um bom ator, vejam só. Não é a toa que já se disse que Roberto Jéferson está conduzindo bem sua minissérie e que fez mais caras e bocas que um Paulo Autran numa peça de Shakespeare.
Mais uma vez, a cena destrói a política construindo o espetáculo. E para cada Lula eleito, podem nascer dez garotinhos, como disse a insuspeita Maria Rita Kehl em recente ótimo artigo no Estadão. Se Lula não é demagogo – e não creio que seja – não deveria se portar como um. Não deveria invocar sua origem humilde e seu notório passado como chancela de verdade, de autenticidade, porque aí não existe relação causal, apenas elo emocional. É que o comportamento emula o discurso de fábrica, o assembleísmo que por sua vez, bebeu na fonte do populismo do trabalhismo.
E lógico, prezado leitor, que não estou condenando a metáfora pela metáfora, pois há as boas e as más, no sentido de apropriação do discurso. Uma metáfora com Millor pode ser altamente irônica (não foi ele quem disse que a Ignorância subiu à cabeça do presidente?) ou Poética, por sua incongruência, como apontou Wilson Martins sobre a obra de Carpinejar.
E a Hipérbole? O exagero? Não é privilégio desse governo, mas impressiona a certeza enunciada livremente de que nunca se fez mais, nunca se conquistou nunca ninguém se dedicou com mais corpo e alma para esse país como o atual governo. É sempre uma descoberta messiânica, uma refundação do Brasil, como se tudo começasse agora . Como alguém já apontou, da autoconfiança para a arrogância é um passo. Seria melhor ponderar que talvez a gente não seja a melhor coisa que já aconteceu na terra. Que outros muitos melhores houve e haverá. Humildade significa sair do ar e voltar a Terra (húmus em latim). Pra usar uma metáfora bem ao gosto, pra perder um jogo basta entrar em campo achando que já ganhou.
E se estou sugerindo comedimento no uso da metáfora e da hipérbole (nunca as denegrindo, claro) isso não significa cifrar a comunicação, torná-la impossível, bem ao contrário, apenas não subestimo a nossa recepção, não penso que seja necessário tutelar nosso entendimento. O governo, infelizmente, vai aprender isso, da forma mais difícil, pagando o preço da sua in(experiência).
*Marcos Kahtalian é professor de Marketing de Serviços da FAE Business School. E-mail: marcosk@swi.com.br