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30/06/2005

Desprezo pela Política

Marcos Kahtalian

Estamos em um país em que, segundo o Barão de Itararé, a vida pública é a continuação da privada, ou ainda, segundo Roberto Campos, a Res Pública é Cosa Nostra. Até aí nada de novo sob o sol, como dizia o Eclesiastes, mas o que os recentes escândalos têm trazido à tona é um sentimento generalizado de decepção. Como se os acontecimentos do mensalão sepultassem a idéia ingênua de que pudesse existir um partido, ou algum messias que permanecesse incólume ante à barbárie política nacional. Não, é mais fácil reconhecer que não existem vestais na política, mas ao mesmo tempo não podemos cair no cinismo de aceitar passivamente a corrupção.

O que preocupa não é a queda simbólica de uma inocência messiânica, supostamente pura, em que o PT e os movimentos sociais, representando os desfavorecidos teriam. Terrível é perceber que a descrença generalizada promove as radicalizações de direita e de esquerda e ainda pior, promove um amplo desprezo público pela política.

Qualquer pesquisa de fim de semana poderá confirmar que não existe classe mais desacreditada que a dos políticos. Do mesmo modo, experimente conversar com qualquer um sobre o que acha da política e dos políticos: inevitavelmente ouviremos muxoxos de desaprovação, como a dizer que política é lugar de sujeira, falsidade, corrupção e por aí vai. Gente série e decente, dizem, não vai para a política e política não é lugar para os bons, mas somente para aqueles que querem se aproveitar.

A idéia é antiga e, de certa forma, origina-se de uma leitura raquítica de Machiavel, que já dizia que se você não tem estômago forte, não deveria entrar para a política. Montaigne, que não obstante foi prefeito (reeleito) de Bordeaux, aceita, mas critica a visão distorcida da leitura de Machiavel, segundo a qual um homem público, necessariamente, caminha para a falta de escrúpulos. É preciso, pensava Montaigne, saber jogar o jogo político, mas isso não significava abdicar de seus princípios. Apenas, é claro, principalmente na discussão de opostos, é preciso saber interagir com o contraditório das opiniões, indo sempre a favor do bem comum.

Nobre visão é claro, e nada mais afastado dela que as imagens cínicas de nossos tempos. Mas aqui gostaria de perguntar, a quem aproveita o desprezo pela política? Quem se beneficia com o sentimento de ausência de representatividade da classe política? A resposta é óbvia, porque a pergunta é retórica. O fato é que nós perdemos ao renunciar publicamente á política, porque no campo da legitimidade democrática é o espaço político, a principal arena do possível. Deixar a política aos políticos seria como dizer aos gregos para renunciar à sua Polis. As crises políticas que se sucederam sobre a antiguidade clássica, sobre o renascimento e sobre a contemporaneidade não deixaram os estados mais fracos, ao contrário, mas politizaram o espaço público que hoje é monopolizado pela mídia e pela política tradicional, de palanque eleitoreiro.

É, portanto, atitude infantil isolar-se do espaço político, como se ele não te pertencesse. Apenas aumentamos o problema da representatividade, ou então germinamos o Ovo da Serpente. Em nenhum dos casos nos sairemos melhor. Desprezar a política será, pois, viver uma cidadania de segunda classe, sem possibilidade de aceitar o real, do jeito que ele é. A política, do jeito que está, é coisa nossa.

*Marcos Kahtalian é professor de Marketing de Serviços da FAE Business School. E-mail: marcosk@swi.com.br

 

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