Acho que foi Lucio Costa quem disse que a única certeza do planejamento é que as coisas não sairão conforme planejado. Não sei se isso é uma referência à Brasília. Deve ser.
O fato é que o planejamento tem sido, na maior parte das empresas, como aquela brincadeira que fazemos no final de ano, quando em família, perguntamos para uns e outros o que esperamos do ano vindouro. Como é natural nessas ocasiões fazemos uma lista do que desejamos fazer, diria ainda, do que desejamos que aconteça, numa lista improvisada de tarefas, às vezes sobre um guardanapo amarfanhado de papel, muitas vezes mesmo como uma prece silenciosa, junto dos indefectíveis três pulinhos de bom agouro e das uvas frescas consumidas, antes do desfalecimento que acompanha uma suave embriaguês.
Nesse caso, a lista de tarefas é uma lista de desejos, um misto de comprometimento tênue com esperançosa ansiedade. É como um regime que começa sempre na segunda feira, após os excessos do fim de semana. E dura até a próxima lasanha, que virá.
Com o planejamento estratégico das empresas, em geral, não tem sido muito diferente. Como na analogia anterior, é comum que ouçamos que o plano foi engavetado, isto é, que na verdade, o plano é o plano, mas a realidade, ah, A Realidade, Ah, essa é bem diferente. Já é fato assumido por muitos consultores que o trabalho que muitas vezes desenvolvem para empresas, durante meses de laborioso planejamento estratégico, transforma-se num relatório denso, com metas, métricas, que no final do ano, quando eventualmente o plano é revisado, é verificado o que se deixou de fazer.
Se o planejamento estratégico não serve para nada, então afinal, para que perder tempo com o planejamento ? Outro dia ouvi mesmo de um colega a seguinte frase: “Mas escute, Marcos, você acredita mesmo em planejamento estratégico?” Confesso que não soube responder, pois se dissesse que acredito sim em planejamento estratégico, ele provavelmente iria gargalhar e perguntar onde é então que havia uma empresa que de fato o praticasse – segundo o manual. É como Papai Noel – não existe.
Gostaria de sugerir aqui nessa tribuna, para os meus caros dezessete leitores de plantão ( O Fábio me garante que já são mais de vinte), algumas hipóteses de pesquisa, que antecipadamente já cedo gentilmente à qualquer doutorando em busca de uma tese:
Hipótese 1 – O Planejamento estratégico não funciona porque somos preguiçosos.
Nesse caso teríamos que investigar se não dá muita preguiça executar tudo o que está planejado etc. Dependendo do plano, é provável que sim, falta vontade e disciplina. A consequência mais concreta de fazer dieta é sentir fome e , cá entre nós, ninguém é de ferro, logo vem o feriado, então vamos deixar tudo para depois, mais tarde.
Hipótese 2 – O Planejamento estratégico não funciona porque A Realidade muda muito.
De fato, a culpa é da realidade. Ela muda muito. Isso não se faz. Todo um trimestre de planejamento duro se esvai em alguns segundos. Assim não é possível. E depois tem aquela história de que o bater de asas de uma borboleta no Amazonas provoca uma enchente no Alasca. Ou seria o contrário ? Ou o exemplo é outro ? Estamos perdidos em tanta volatilidade. Alguém pode me explicar onde é que estamos? Estou começando a achar uma palhaçada esse negócio de teoria do caos. Se uma borboleta provoca tudo isso, imagina um automóvel. É ver pra crer. A única certeza, como dizia Benjamim Franklin, é a da morte e de que iremos pagar impostos. Tsunami é lucro.
Hipótese 3 – O Planejamento estratégico não funciona porque ele não é feito para funcionar.
Quando vemos planos empresariais com 37 objetivos estratégicos, 225 planos táticos e 890 planos de produto é provável que nada irá funcionar. Ainda mais que uma coisa depende da outra, uma coisa está ligada à outra, é tudo muito holístico, entende? O quer importa é o processo, o envolvimento de todos, a contribuição de toda a organização, os meios, não os fins. Lucro? Ah, lucro é só a última linha do balanço, cara, o que importa é como chegar lá, entende, como chegar lá...
Hipótese 4 – O Planejamento estratégico não funciona por que não sabemos o que devemos esperar de um planejamento estratégico.
Planejamos para quê? Para planejar, ou para executar? De fato, vemos quais são as nossas reais capacidades de implementação? Ou superestimamos nossa eficiência? Somos piores do que pensamos, sempre.
Hipótese 5 – O Planejamento estratégico não funciona porque não sabemos planejar.
Sabemos ?
ÚLTIMA HIPÓTESE – O Planejamento Estratégico não funciona porque, de fato, ninguém está comprometido com ele.
Não é esse apenas um problema da base, ou do nível gerencial. Todo mundo sabe, nesse contexto, que o planejamento é um mal necessário, mas logo logo, virá a boa e velha realidade e temos mais é que executar nossas tarefas, sabe-se lá o que vai estar hoje se passando no nariz do meu chefe. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.
Outra hipóteses? É provável que sim. Cartas para a redação.
Particularmente penso que a única contribuição do planejamento estratégico nas organizações tem sido criar um pouco de cultura de planejamento e uma ainda vã e incipiente tentativa de alinhar a organização à uma suposta estratégia. Muito pouco, convenhamos, e demonstra o quão frágeis são as nossas organizações.
*Marcos Kahtalian é professor de Marketing de Serviços da FAE Business School. E-mail: marcosk@swi.com.br