Falar bem – ou mal- de Paulo Coelho é igualmente fácil e fútil. Os números impressionam: mais de 300 mil exemplares de lançamento no Brasil do seu último livro o ZAHIR, quando considera-se geralmente bem sucedido um autor no Brasil quando atinge a tiragem de 3.000 exemplares. Capa de três revistas semanais brasileiras, feito que só ocorre com aquilo que se considera notícia: o Tsunami, a morte do Papa e por aí vai. Isto é, uma notícia que seja considerada absoluta, sob qualquer viés, assim foi com Paulo Coelho.
A questão falsa é o debate entre ser ou não ser boa literatura aquilo que ele escreve. Não é, mas é um sucesso, assim como Harry Potter, Norah Roberts e tantos outros. E não há nenhum demérito nisso, o escritor de entretenimento deve ser convenientemente julgado pela capacidade de atingir os anseios do seu público-alvo. Não importa se a fórmula é gasta e se o conteúdo é oco: também as novelas o são, e não deixam de ser por isso, muito boas como entretenimento, como produto cultural.
Seria ridículo contudo, imaginar que houvesse um caráter de densidade em uma obra que destina-se a destilar enredos e “filosofia” do senso comum. Não se pensaria em conceder à Sidney Sheldon um prêmio Pulitzer ou um Nobel à Harold Robbins.
Todo o problema ocorre quando a pretensão autoral do artista procura o reconhecimento artístico numa obra condenada às multidões. O biscoito fino para as massas de que falava Oswald, infelizmente, não pode ser concretizado por absoluta incapacidade do sistema de produção-recepção da obra aprofundar aquilo que é pasteurizado. É uma utopia. Isto é, Hollywood sempre será Hollywood e no máximo um pouquinho de apuro pode ser conferido no entretenimento nosso de cada dia. Que aliás é o que garante os lucros do sistema que acaba segmentando um mercado independente e mais qualificado. É a “Senhora do Destino” que permite “Um dia de Maria”, não o contrário. Graças ao Big Brother, sobra dinheiro para pagar o enorme custo fixo dos correspondentes do jornalismo da Globo no mundo. O caixa é único e, como dizem os financeiros, é o Rei.
Portanto, embora seja legítima a tentativa de Paulo Coelho buscar reconhecimento intelectual ( o que mais ele poderia almejar?), essa sua peregrinação esbarrará nas contradições inerentes ao próprio sucesso que exige maiores volumes e massificação, enquanto o pequeno mercado de influência e formador de opinião exige tiragens pequenas e outra distribuição. São outros os 4 ps, pois é outro o mercado.
Assim, minha sugestão para o escritor, como um observador atento do mercado, seria que trabalhasse o nicho, fizesse uma extensão de linha, com outro marketing mix. É possível ? A história das marcas mostra que é mais difícil elitizar uma marca popular, do que popularizar uma marca de prestígio, mão não é impossível. Assim como o sucesso massificado, o prestígio tem um preço e consumidores muito , mas muito mais exigentes e informados. Como Paulo Coelho é um sujeito obstinado pelo sucesso, se compreender essa verdade (Eu também sei usar frase de auto ajuda, viu!) um mundo de prestígio se abrirá como num passe de mágica aos seus pés. Pois, como mesmo o autor diz, basta acreditar em alguma coisa que o mundo todo moverá forças para ajudá-lo.
Bem, é bem verdade que a idéia original por trás dessa frase é de Goethe, muito mais ilustre, sem dúvida. Do mesmo modo que “Os sofrimentos do jovem Werther” mudou a vida de uma geração, Paulo Coelho hoje toca os corações de tantos e na distância entre os autores, aprendemos então que alguma coisa mudou com o passar dos anos. Se você encontrar hoje algum rapaz que tenha lido Fausto, é provável que alguma coisa nesse rapaz esteja fora do lugar. Num mundo de Paulo Coelho, um pacto com Mefistófeles não dá enredo nem pra escola de samba. E cada um é livre para ler aquilo que julgar mais conveniente.
MARCOS KAHTALIAN
MARKETING DE SERVIÇOS