Num mundo em que o verdadeiro homem chora
É provável que a entrada plena da mulher no mercado de trabalho tenha sido um dos fatos mais importantes para a reconfiguração da esfera social. É cômodo pensar que a conquista de espaços da mulher foi exatamente isso- uma conquista – quando é muito mais provável que o dominante machismo e domínio patriarcal tenham sido levados a isso pela necessidade imperiosa de mais e melhores trabalhadores qualificados de um lado e de outro pela contingência da divisão de renda familiar e consequentemente da ampliação do mercado de consumo.
Não estou dizendo com isso, que as mulheres não tenham uma bela – e nobre – participação ativa na mudança comportamental das nossas sociedades de consumo, mas como tudo, o que acontece é que a cultura segue a economia, e com atraso. O crescimento demográfico urbano, as pressões de consumo, o custo de vida e necessidade de renda forçaram a quebra do paradigma –infelizmente ainda forte – de que a esfera específica da mulher é a arena doméstica enquanto a do homem é o trabalho externo. Homens trabalham fora, mulheres ficam em casa e cuidam do lar, como dizia Montaigne no século XVI, e mesmo quando o trabalho feminino foi intenso, por exemplo, na Revolução Industrial junto com suas crianças, a economia capitalista construiu-se valendo-se principalmente da força de trabalho masculina, sendo o trabalho industrial de natureza notadamente física, o que ampliava a distância da mulher de uma possível renda, e portanto, diga-se, de sua independência.
No pós-guerra, com a burocratização do trabalho, o espaço idealizado para a mulher no trabalho foi o das profissões tidas como acessórias e simples como recepcionistas, secretárias, auxiliares de modo geral. Mulher ocupando uma gerência, nem pensar, pois ainda, na década de 50, a mulher era vista, na organização, como submissa e infantilizada, sendo raro o ingresso de mulheres em cursos superiores. A profissão da mulher ainda era casar – e se tivesse sorte, ou talento, com um bom marido.
O que mudou desse tempo de Doris Day para hoje é, essencialmente a própria natureza do trabalho. Saímos de uma economia industrial e passamos para uma chamada economia do conhecimento. O acesso social, hoje, portanto, é fruto do conhecimento e claro, o conhecimento não é prerrogativa de homens e nem de mulheres - é do ser humano.
Nesse ponto, hoje cabe notar que 56% das matriculas de ensino superior no Brasil são de mulheres, 46% dos domicílios do sudeste são sustentados pelas mulheres e há várias áreas profissionais onde as mulheres são maioria –qualitativa e quantitativa, como nas áreas de saúde, educação e mesmo em algumas áreas organizacionais como Marketing e Recursos Humanos. Apesar disso, a desigualdade persiste, pois no topo da hierarquia, segundo o Ethos, só 2% dos presidentes das grandes empresas são mulheres, ocupando apenas 9% das diretorias. Com uma diferença salarial média para o homem de 42% (IBGE). Um quadro ainda ruim, mas que claro, vai mudar e rápido, em função da qualificação das mulheres no mercado do conhecimento. Nos EUA, por exemplo, a diferença salarial hoje caiu para apenas 15% e eu aqui , na FAE, pude notar espantado – e satisfeito, que dos 6 primeiros lugares dos formandos em administração em 2004, 5 eram ocupados por mulheres. Não tenho dúvida do sucesso delas e se tivesse que arriscar uma hipótese que não cai nem no reducionismo neuro-psiquíco-biólogico (ver a polêmica Summers, em Harvard, apontando deficiência inata das mulheres para a qualidade do raciocíno lógico), nem por outro lado numa culturalização desmesurada que nega qualquer diferença (Apesar de tudo, Homens e Mulheres não são iguais), gostaria de sugerir que o sucesso feminino atual está muito relacionado a sua educação sentimental, isto é, ao fato de em média, conseguirem expressar e comunicar melhor seus sentimentos e emoções, dialogando de forma integral com os dois hemisfériso cerebrais.
Homens não choram, mas eles deveriam, pois uma empresa é constituída de lógica, mas também de paixão e sentimento, de relacionamentos, daquilo que talvez impropriamente chamamos de capital humano, o conjunto se valores intangíveis de uma cultura organizacional que transforma-se em conhecimento e valor para o mercado-alvo.
Os homens estão perdidos, é claro, mas o que estão recebendo agora, é pouco perto do que fizeram e ainda fazem em mais de 3000 anos de repressão patriarcal. A reconfiguração social da mulher reconfigura o homem e nós que vivemos nesse período de transição temos que aprender vivendo. Mulheres suportando a pressão (que elas mesmas muitas vezes exageradamente se impõe) e homens aprendendo a interagir, de forma adulta e responsável coma mulher.
O machismo está enterrado? Ou ressentido? Não acredito é claro que caiba hoje espaço para afirmações do passado que hoje nos chocam, como a de Schopenhauer para quem as mulheres eram incapazes até mesmo de fazer café direito – pois não não tinham a capacidade de concentração – e tantos outros chistes como o de Severo Catalina, que dizia que as mulheres só cresciam mentalmente até os seis anos, ou ainda Sócrates, esse pai da Filosofia que, casado com Xantipa, recomendava que todo homem devia se casar, pois se a mulher for boa o fará feliz e se for ruim, o tornará um filósofo. E vamos parar por aqui, para não chocar as mentes mais pudicas, relatando o que os manuais de bruxaria da idade média diziam do poder uterino.
No século XXI, a vitória da mulher será a vitória do conhecimento, da inteligência e do amor, que como no último verso da Divina Comédia, move o sol e mais estrelas. (l’amor che move il sole e l’altre stelle”)
MARCOS KAHTALIAN
Marketing de Serviços