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04/03/2005

Se quatro anos é pouco...

Marcos Kahtalian

Dizem que quatro anos é pouco tempo, mas talvez, mais quatro anos também não sejam suficientes. Talvez mais quatro também não e mais quatro idem e assim sucessivamente. Como nos paradoxos de Zenão, a cada quatro anos, zeraria o cronômetro do tempo, de modo que nunca chegaríamos ao ponto desejado. Quanto tempo é tempo suficiente ?

A conversinha que se insinua é a de espichar o mandato do presidente. FHC quis ficar mais quatro e dizem o que o segundo governo foi, como diria Marx, a farsa do primeiro. Lula quer renovar o mandato e Severino já disse que o ideal é seis anos. Ou seria cinco, como Juscelino, cinqüenta anos em cinco ?

De fato, se em quatro anos não dá “pra fazer nada”, é possível que mais quatro nada mais acrescentem. É que a continuidade sempre, no Brasil, é política, mas não administrativa. E a administração segue as vicissitudes da política, isto é, distribuição de cargos, apadrinhamentos e aparelhamentos. Muda o governo, ainda que por reeleição, muda o composto administrativo.

Seria,portanto, realmente,pouco o mandato de quatro anos? Ou esse discurso anestesia a percepção pública da incompetência de um executivo que “quase não tem tempo para fazer nada”.

Curioso seria comparar a situação da presidência da república com a presidência de uma grande empresa. Nenhum dirigente empresarial poderia dizer que não teve tempo para fazer nada de bom em quatro anos. Perderia o emprego e não ganharia outro mandato do conselho. Claro, pode ser objetado que governar o país é bem diferente de governar uma empresa (quem insiste nas metáforas é o nosso presidente, mas pelo menos essa não envolve futebol). Não sei se é mais fácil ou difícil governar um país, mas pelo menos um governante vive de sua arrecadação e tem ainda alguns instrumentos interessantes para gerar riqueza, inclusive, emitindo moeda. É provável que haja mais pressões, é provável mesmo que “falte tempo” para “tanta coisa”, e por isso torna-se ainda mais importante a administração eficaz do tempo. Como todo mundo sabe, governar é fazer escolhas, dirigir é alocar da forma mais eficiente os recursos de uma organização.

Nas organizações privadas a pressão por eficiência gerencial é medida através de indicadores acompanhados em curto prazo de tempo, semanas, meses, dias. O resultado é o tempo inteiro avaliado para correção de rota. Longo prazo, para a empresa, é o ano fiscal, um ou dois anos no máximo. Ela não pode se permitir ter quatro anos de maus resultados.

Mas quem cobra o governo?

Todos e ninguém, isto é, todo mundo cobra tudo do governo, mas tirando as metas econômicas, é provável que ninguém saiba e acompanhe exatamente quais são as metas sociais, em educação, saúde, infra-estrutura etc. Salvo o bravatismo oficial que emite dados e diagnósticos acompanhados de promessas messiânicas (o fome zero, a reforma agrária, etc), não há um conjunto de indicadores a ser acompanhado pelos atores sociais e que serve como cobrança das políticas públicas. As bases estatísticas mesmo são frágeis (muitas vezes manipuladas em sua divulgação), ficando sempre o sabor da meia verdade, quando não de uma guerra de números conflitantes.

Isso mostra o nosso desapreço pela medição sistemática e, como todo administrador deveria saber, quem não mede não gerencia. Somos governados mais pela subjetividade contida em “projetos” do que por sistemas administrativos de longo prazo, com um conjunto de indicadores relativamente pequeno, mas fundamental para o interesse público.

Para que, portanto, quatro anos é pouco?

Mário de Andrade escreveu Macunaíma em cinco dias, Dostoievski fez O Jogador em vinte e cinco, Einstein desenvolveu a relatividade em três meses, Deus fez o mundo em sete, Cervantes levou mais de um década escrevendo o Quixote, Alexandre conquistou o mundo em cinco e para qualquer lado que você procure, verá exemplos que mostram como o tempo é o conceito mais filosófico – e relativo- de todos os conceitos. Que é o tempo? Uma duração? Um fluxo, como queria Bergson? Cem anos do ponto de vista histórico não são nada. Talvez nem duzentos anos. Se forçarmos a memória, dirão os historiadores que muitos de nosso problemas chegaram com as caravelas, com o mercantilismo. E que as situações devem ser vistas de forma diacrônica, isto é, através do tempo. A desculpa do tempo, portanto é ótima para se fazer nada ou então para se fazer aquilo que se propõe a ser feito.

Acredito portanto que se em seis meses um governo- qualquer governo- não iniciar a implementação de medidas sociais eficazes, provavelmente não o fará no final dos quatro anos, ou em cinco ou em mais quatro.

Mas talvez esteja exagerando. Talvez seis meses seja pouco. Ou muito. Quem sabe um mês, ou dez anos.

Apenas sei que, para quem não sabe onde vai, toda viagem é longa, pois não levará a lugar algum. Quando o projeto do poder é o poder em si mesmo, o poder-finalidade, um século não será suficiente.

O governo, portanto, não deve condicionar o resultado ao tempo, mas o tempo ao resultado. Isto é, não se trata de quanto tempo levará para resolver os problemas do Brasil, mas que problemas se pode resolver no tempo que se tem. Acabar com a “pobreza” é uma quimera; diminuir a desnutrição no Vale do Jequitinhonha em 30 % uma meta realizável. Em 100%, difícil, mas realizável, ainda assim.
Ou governamos o nosso tempo ou seremos governados por ele.

Porque o tempo, disse Virgílio, ”Fugit irreparabile...”. Trata-se de uma matéria sem devolução, da qual só podemos lamentar tê-lo perdido.


MARCOS KAHTALIAN

Professor de marketing deServiços.
 

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