O urgente e o importante:
The change we need, Mr Obama
Como se sabe, o risco de administrar o urgente é esquecer o importante. Dizendo de outra maneira, o agudo sufoca o crônico e adiamos aquelas inevitáveis tarefas importantes que não parecem ser tão graves no presente momento. Até o dia em que o importante passe a ser urgente e assim sucessivamente.
A história é antiga: perder agora ou perder mais tarde? As vozes catastróficas muitas vezes aludem para a impossibilidade do amanhã, e a economia parece ser o reino onde as verdades de curto prazo prevalecem sobre o longo prazo. Da frase mais conhecida de Keynes, aludindo para o fato de que estaremos mortos no longo prazo; a fábula de Bernard de Mandeville, referindo-se ao egoísmo visceral dos agentes que maximizam o seu bem estar e até mesmo as recentes descobertas da psicologia experimental e cognitiva, da própria teoria dos jogos, onde inevitavelmente a regra é a minimização de perdas, de modo geral em economia o lucro imediato e máximo é sempre comparado com o fluxo de caixa futuro (e por isso mesmo sempre incerto). O sujeito raras vezes troca uma realização palpável agora por uma realização futura inefável. O futuro, conforme disse Valéry em outro contexto, já não é aquilo que costumava ser, e, de modo geral, as previsões catastróficas têm sido humilhadas (até o presente momento) pela salvadora cavalaria: as inovações de produtividade e a tecnologia. Mas a pergunta é até quando Malthus estará errado? Até quando o planeta sustentará o mantra do crescimento como palavra incontestada?
Nesse sentido, o mais importante hoje, e que segundo alguns já é urgente (ver relatório do IPCC), é a questão ambiental, cristalizada na idéia de aquecimento global. Acredito que esta é e deveria ser a única e grande realização possível do governo Obama. Isto, per si, já será suficiente para que ele ganhe uma estátua no capitólio maior do que a de Lincoln, o que deve ser sua vaidosa e humana ambição.
Mr Obama, esqueça (ou melhor, não perca muito o sono) com o Oriente Médio: lá o senhor pode fazer pouco; eles se matam mesmo nesta guerra de gregos e troianos em que os dois lados têm razão. A mesma coisa com a própria recessão, que só será resolvida, como quase a totalidade das doenças, com o passar do tempo e muita paciência. Se governar é escolher prioridades realmente “prioritárias”, então, eis a sugestão.
Pela primeira vez depois de oito anos, em novembro de 2009, na cidade de Copenhagen, os EUA terão um governo que não deverá ser desfavorável aos protocolos de adequação ambiental global. Até então, no governo Bush, a questão ambiental era apenas uma conta que ainda não fechava nos balanços, isto é, o custo não compensava.
Talvez hoje mais ainda a conta não feche, devido ao custo econômico da recessão. Esse é o paradigma real, a “real change” que pode promover o governo de Obama. Talvez, ao invés de investir de forma duvidosa naquilo que ainda não é um plano concreto, mas uma fluida intenção de investimentos dirigidos para discutíveis estradas e outras obras de infra-estrutura, talvez o grande investimento que só os governos estariam dispostos a fazer é justamente na mudança das matrizes energéticas e na coordenação de esforços de mudanças nas práticas industriais e agrícolas, onde só o governo poderia absorver as perdas presentes em prol de um futuro menos sombrio.
É claro que é um sonho, Mr Obama. Como era o senhor na presidência. Como os mais improváveis sonhos, a reforma ambiental no atual momento parece ter, paradoxalmente, as melhores condições possíveis. Coloque-a em prática, Mr Obama; antes que o importante torne-se urgente e estejamos naquela situação do banhista desavisado que, com um pouco mais do que pavor, vê a tremenda onda engolfá-lo, enquanto ele achava que estava no mar apenas pegando um insosso jacaré.
Marcos Kahtalian, professor universitário e sócio da BRAIN.