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03/03/2009

Cortar empregos: Real necessidade ou Modismo?

Paulo Roberto Araujo Cruz Filho

No final de fevereiro, o IBGE divulgou a taxa de desemprego da população economicamente ativa no Brasil em janeiro desse ano: 8,2%, o que representa um aumento de 1,4 pontos percentuais em comparação a dezembro de 2008. Alguns dias depois uma reportagem da rádio KNX, de Los Angeles, emitia uma série de entrevistas com recém-desempregados da cidade. A maioria eram pessoas que tinham bons empregos, algumas há mais de dez anos na empresa, e que foram simplesmente “descartadas” devido à “crise”.

Essa é, infelizmente, uma realidade global. A taxa de desemprego dos Estados Unidos atingiu 7,6% em janeiro desse ano, um aumento de 0,4 pontos percentuais em comparação a dezembro de 2008. Aqui no Canadá a taxa de desemprego de janeiro foi de 7,2%, um aumento de 0,6% em comparação ao mês anterior. A fabricante de equipamentos de telecomunicações Nortel, por exemplo, comunicou que demitirá 3.200 funcionários em todo o mundo, o que representa 10% dos funcionários da empresa.
Diante dessa realidade, podemos fazer um questionamento: será mesmo necessário cortar tantos empregos devido ao contexto econômico atual, ou trata-se, em uma análise mais profunda, de um certo modismo difundido e justificado “por causa da crise”? É evidente que a crise financeira iniciada nos Estados Unidos resultou em uma recessão econômica mundial, e as conseqüências do efeito cascata da desaceleração da economia são sentidas por todas as empresas, independente do setor de atuação. Entretanto, a simplificação da compreensão popular sobre as causas e principalmente sobre as conseqüências dessa crise acaba dando origem ao que podemos chamar de efeito psicológico da crise.
Esse efeito psicológico, apesar de possuir uma origem real e legítima, gera uma “compreensão” comum de que, como o momento atual é desfavorável, as empresas deverão tomar ações para manter a saúde financeira, e assim serão obrigadas a fazer cortes de pessoal. As pessoas começam então a agir de acordo com essa “realidade”. Essa é a tendência da chamada profecia auto-realizada: nossas ações criam a situação que esperávamos, como explica o professor americano James Bowditch. Cria-se assim uma premissa falsa, um sentimento coletivo de uma crise generalizada cuja única solução é o corte de pessoal. As empresas avaliam corretamente que a diminuição de alguns postos de trabalho gera uma economia financeira adequada ao corte de gastos necessário, enquanto a sociedade acaba legitimando tais demissões como conseqüências “lógicas” da crise. A difusão natural dessa prática gera um padrão de comportamento que caracteriza o surgimento de um modismo.
A revista HRfocus, do Institute of Management and Administration de New Jersey (EUA), publicou os resultados de uma pesquisa realizada entre outubro e novembro de 2008 com 145 profissionais de recursos humanos. A pergunta realizada foi: Como a sua organização está lidando com os desafios impostos pela economia, e como o setor de recursos humanos está auxiliando nesse processo? Aproximadamente 40% das empresas ainda não tinham tomado nenhuma atitude específica, mas a maioria dessas ainda estava considerando algumas opções. Das ações que já estavam sendo tomadas, 41% das empresas congelaram novas contratações e cancelaram ou reduziram aumentos de salários que haviam sido planejados, 23% das empresas demitiram funcionários, e 25% estavam revisando os planos de aposentadoria dos empregados.
Percebemos assim que as quatro principais ações tomadas pelas empresas foram: reduzir contratações, reduzir aumentos de salários, demitir funcionários e revisar planos de aposentadoria. Todas essas ações influenciando diretamente os empregados da organização. A grande curiosidade é a resposta dos profissionais de recursos humanos à pergunta: Como você reduziria o orçamento se esta fosse sua responsabilidade? Aproximadamente 67% desses profissionais tentariam reduzir custos, como renegociar contratos com fornecedores, 32% re-avaliariam ou atrasariam projetos de melhoria, e 30% tentariam reorganizar tarefas entre os funcionários procurando manter os empregos. Menos de 10% dos profissionais disseram que iriam reduzir o quadro de funcionários. E eles são, a princípio, os especialistas nessa questão.
Mas como esse modismo afeta o mercado?
No mundo das grandes empresas, o número de demitidos atinge dezenas de milhares em uma só organização.  A Volkswagen, que emprega mundialmente cerca de 330.000 pessoas, declarou que em 2009 não manterá mais nenhum funcionário temporário. Isso significará a demissão de 16.500 trabalhadores em todo o mundo. Porém, a montadora não planeja demitir nenhum funcionário fixo. Para isso, a empresa aplicou medidas como carga de trabalho reduzida para limitar a produção, não produzindo estoques e diminuindo assim os custos sem a necessidade de realizar demissões. Já a General Motors anunciou há quinza dias que, caso não receba mais 30 bilhões de dólares de ajuda do governo americano, deverá cortar 47.000 empregos até o fim de 2009. Obviamente que essa não é a única medida adotada pela corporação, mas o número é expressivo. É importante lembrar que a GM acumula dificuldades e problemas de gestão por mais de uma década, e sem dúvida não foi somente a crise econômica atual que originou a sua situação caótica.
Enquanto no Brasil a venda de carros continua em alta. Em fevereiro desse ano as vendas foram superiores às de janeiro, e somente 0,7% menores do que em fevereiro de 2008. Lauro Jardim, colunista do Radar On-line, destaca as duas razões desse bom desempenho: maior disponibilidade de crédito e a antecipação da compra de carros antes do término da redução do IPI no final de março. Disponibilidade de crédito e redução de impostos? Será que não temos aí algumas idéias para estimular o comércio, ajudar as empresas e salvar empregos? Problemas especiais exigem soluções especiais. Em plena recessão do início dos anos oitenta, Ted Turner decidiu abrir a sua empresa baseando-se em uma proposta inovadora: divulgar informação 24 horas por dia. Nascia assim a Cable News Network, mundialmente conhecida como CNN. E diversas outras empresas como a General Eletric, FedEx, Burger King, Hewlett-Packard iniciaram as suas atividades em épocas de recessão econômica. Na França, o C.E.O. do Eiffage, o oitavo maior grupo de construção da Europa, Jean-François Roverato, anunciou o corte do próprio salário em 10% no ano de 2009 como forma de demonstrar o compromisso da empresa em não demitir nenhum funcionário neste ano.
E no mundo das pequenas... semana passada conversei com o dono de uma mercearia que fica nos arredores da minha casa. Perguntei a ele como estavam indo os negócios, em comparação com 2007 e 2008. Ele me disse que seus lucros estavam menores em relação aos dois últimos anos, e que teve que demitir dois de seus funcionários no fim do ano passado. Até que ele terminou com a frase “C’est la crise... rien à faire!” (É a crise... não podemos fazer nada!).
Coloco assim o seguinte questionamento: até que ponto a “crise” realmente obriga as empresas a demitir, e até que ponto essa onda de demissões é a dramática difusão de um modismo?
 
Paulo Cruz Filho é sócio da Brain e professor universitário. Atualmente reside no Canadá onde é pesquisador do Centro de Pesquisa do Canadá em Economia Social, e doutorando em administração estratégica na Université du Québec à Montréal.
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