O clima não está bom. E parece que a imprensa faz questão de piorá-lo, como me disse outro dia um empresário.
A queixa é antiga e a leitura de jornais já foi considerada até causa de azia. Homens de negócio, colegas meus consultores, políticos, pequenos e grandes empresários se desesperam todo dia que uma notícia ruim é publicada. A tal das expectativas, que parece ser contaminada e amplificada pelo poder da notícia bombástica. Queixam-se todos que os jornais parecem não ver o quanto estão contribuindo para o clima de pessimismo geral, com a espetacularização do desastre.
É uma queixa que pode fazer sentido aparente, embora, pedir a um jornalista que seja cauteloso e módico em suas expressões é quase tão inútil quanto pedir a um tubarão que seja parcimonioso em suas refeições – sem demérito algum para jornalistas e tubarões.
Schopenhauer já dizia que a dramatização faz parte da sociologia do meio. E, um tanto acidamente, comentava que os jornalistas assemelhavam-se àqueles cachorrinhos diminutos que fazem o maior estardalhaço por qualquer ninharia que passe em frente ao seu portão – devemos, dizia ele, olhar para os latidos, para ter ciência, porém sem perder muito tempo com eles – Schopenhauer, que nunca passava uma tarde sem ler seu Times.
Se assim é, por que tanta revolta contra os jornais e jornalistas (outro dia ouvi um conhecido empresário me garantir que a Miriam Leitão era quase a responsável pelo pessimismo geral e, acrescentava pela quebra de expectativas)?
É que, de fundo a este pensamento, subiste a crença ingênua que os jornais têm um poder maior do que o normal. Quase como se eles fossem capazes de manipular os comportamentos das pessoas, numa visão que lembra a de certos filmes de ficção científica, cujas ondas de informação de satélites automatizassem comportamentos tele-guiados.
Não é bem assim, e a teorias da comunicação procuram estudar o fenômeno muito mais complexo que envolve a produção e a recepção de conteúdos nos meios de massa. Nunca o espectador é tão passivo que compre uma idéia plenamente, pois as idéias são reformuladas em cada contexto particular. Não basta o peso de um jornal para mudar uma determinada realidade; ele é um entre diversos atores sociais.
Mais grave, creio, é que por trás dessa crítica e má vontade contra os jornais, persiste a nunca muito clara percepção de que os órgãos de imprensa deveriam ser controlados, deveriam ser de alguma forma censurados, ou até punidos.
É um equívoco pensar assim, como também o é acreditar numa imprensa “totalmente” livre. Liberdade de imprensa de verdade, como disse certa vez Millor, é poder escolher o seu jornal.
E é somente nesta pluralidade que o melhor do debate de idéias – pessimistas, realistas, otimistas ou o que for – pode frutificar, inclusive para contrapor visões. Nenhum jornal, como empresa baseada na livre concorrência irá querer perder os seus leitores e estes serão os primeiros a sinalizarem quando o jornal passar dos limites do crível para aqueles leitores. Os jornais podem muito, porém nunca poderão tudo.
E a crise vai passar, a despeito das péssimas notícias que se tem publicado a seu respeito.