Quem assistiu a programa Manhattan Connection de 18/10/2009 deve ter se impressionado com as declarações de Diogo Mainardi sobre o aquecimento global. Ele disse que “essa história de aquecimento global é besteira” e conclamou (bem ao seu estilo ultra-polêmico) os telespectadores a esquecerem suas bicicletas e tirarem seus carros da garagem para se locomoverem. Se o motivo do choque é distinto, a surpresa é comum aos dois extremos da questão. De um lado, os “aquecimentistas” devem ter ficado indignados e revoltados com a afronta da feita pelo jornalista, pensando como alguém pode ser tão “conservador”, “vendido” e “direitista”. Do outro lado, os “anti-aquecimentistas” com certeza ficaram surpresos com uma declaração tão forte favorável a sua tese feita em um programa jornalístico de grande audiência entre formadores de opinião, em tempos nos quais a luta contra os vilões do aquecimento global se transformou em verdadeiro “lugar comum” nos veículos de massa. Para mim, caro leitor, que não me incluo em nenhum dos dois grupos, o principal efeito da declaração do Diogo foi me motivar a escrever este artigo para tentar esclarecer um pouco da confusão (e eventualmente questionar alguns “lugares comuns”) quando o assunto é aquecimento global.
Em primeiro lugar devo definir os dois grupos que citei no parágrafo anterior. Os “aquecimentistas” são os defensores extremados da hipótese de que a Terra vem aquecendo (e deverá aumentar o ritmo deste aquecimento nos próximos anos) em função das emissões de CO2 feitas pela humanidade. São os idólatras de Lovelock e Al Gore, devoradores ingênuos dos relatórios do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change ou Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, estabelecido em 1988 pela Organização Meteorológica Mundial e pelas Nações Unidas) e muitos outros tipos bem-intencionados afeitos a modismos além, é óbvio, daqueles que possuem interesse (normalmente econômico) direto no assunto. Por outro lado, os “anti-aquecimentistas” são aqueles que chamam os “aquecimentistas” de “eco-chatos”, “eco-bobos”, “retógrados marxistas-leninistas-trotskistas” e “exterminadores do futuro” entre outras denominações similares.
Para o primeiro grupo, o vilão está muito claro: o CO2 produzido pela atividade econômica.Assim, tudo que puder ser feito para minimizar as emissões de CO2 na atmosfera poderá contribuir para a redução dos efeitos futuros do aquecimento. Destas conclusões nasceu o Protocolo de Kyoto, os créditos de carbono e todas as discussões recentes sobre metas de redução de emissões de CO2 nas mais diversas regiões do globo. Infiltrado nesse grupo encontra-se um subtipo de “aquecimentista” muito peculiar: o “devorador” de verbas públicas de pesquisa para minimizar os efeitos do aquecimento. Este subtipo está espalhado por todo o planeta, é formador de opinião e normalmente enquadra-se no segmento mais radical do seu bando: para os “devoradores”, o aquecimento é irreversível, não tem mais volta, e o máximo que podemos fazer é desenvolver novas espécies de cultivo na agricultura e novos dispositivos para a vida urbana em um mundo muito mais quente, com as atuais zonas costeiras submersas e as geleiras dos pólos e das regiões alpinas extintas.
Para dar um exemplo, alguns exemplares deste subtipo, atuantes no Brasil, conseguiram vultosas verbas para desenvolver cepas de café arabica adaptadas ao clima do Planalto Catarinense, que segundo suas projeções deverá se constituir na nova fronteira cafeeira no Brasil em menos de 30 anos. A motivação para a pesquisa seria o fato de que as melhores regiões produtoras de café no Brasil da atualidade (Cerrado Mineiro, Sul de Minas e Mogiana, entre outras) terão temperaturas médias superiores aos limites toleráveis pela planta. Entretanto, ao mesmo tempo em que a pesquisa começa a ser desenvolvida, tem-se a notícia de que a Vinícola Pericó, instalada no município de São Joaquim, no mesmo Planalto Catarinense, acaba de produzir o primeiro ice wine brasileiro. Para quem não sabe, o ice wine é um vinho de sobremesa super valorizado (uma garrafa de 375ml custa entre R$ 200,00 e R$500,00), que tem de ser colhido ao final da safra (final de maio ou início de junho em Santa Catarina) com as uvas super-maduras, em um momento no qual a temperatura interna das bagas esteja abaixo de -6oC por mais de 12 horas. Para que isso seja possível em uma noite seca, é necessário que a temperatura oficial, medida a 2 metros de altura do solo, desça abaixo de 0oC ainda antes do por do sol e chegue pelo menos a -5oC algumas horas antes do nascer do sol, mantendo-se em torno destes valores até a colheita. Na Vinícola Pericó, a colheita deste ano foi feita na manhã do dia 05 de junho, sob uma temperatura de -7,5oC (a mínima foi de -8,1oC)
Os melhores ice wines do mundo são produzidos na Alemanha, na Áustria, no norte da Itália e no Canadá. Entretanto, algumas vinícolas do noroeste e do nordeste americano, assim como das regiões mais frias da Austrália também tem uma produção regular. A esta altura, o leitor atento deve estar se questionando: como seria possível plantar café (cuja morte da planta ocorre com temperaturas negativas da seiva) em um local cujos termômetros registram -8oC ainda no outono? O fato é que algumas previsões mais pessimistas (ou seriam otimistas?) publicadas pelo ICECAP (International Climate and Environmental Change Assessment Project) projetam um aquecimento médio de 5oC para esta região do Brasil nos próximos 20 ou 30 anos. Tomando os valores atuais de temperaturas médias de inverno na região citada (entre 7oC e 11oC, dependendo da altitude e da latitude) poderíamos projetar médias em torno de 12oC e 16oC (o norte do Paraná, atual fronteira sul da cafeicultura nacional, cujos cafezais foram devastados pelas geadas de 1975 e 1994, tem média de inverno em torno de 16oC). Obviamente, por maior que seja o aquecimento, as geadas deverão continuar ocorrendo esporadicamente, e esse seria o tamanho do desafio da pesquisa. Mas ainda assim deve haver algo de errado... Afinal, o número de empresas investindo na produção de vinhos e de outras árvores frutíferas de clima temperado na região continua aumentando ano após ano e, além disso, existem áreas mais elevadas do norte do Paraná, sul de Minas e Serra da Mantiqueira que estão mais próximas da cultura cafeeira e mesmo no cenário de aquecimento estapafúrdio projetado ainda poderiam abrigar as cepas atuais sem muitos problemas.
A esta altura o leitor deve estar começando a compreender o título do artigo. Os supercomputadores que prevêem um aquecimento médio de 5oC para daqui a duas ou três décadas são os mesmos que costumam errar a previsão de tempo para a semana que vem. São também os mesmos que previram (em 2006) que 2008 seria o ano mais quente da história. E que 2009 tomaria seu lugar na escalada do aquecimento. Pois bem, depois de termos recordes de temperatura em 1998, 2002 e 2005, a temperatura na maioria das localidades começou a diminuir a partir de 2006. Até mesmo muitos cientistas defensores da tese do aquecimento antropogênico já assumem que nosso planeta “entrou em pequeno ciclo de resfriamento, que deverá ser revertido brevemente”.
Além disso, mesmo que a hipótese do aquecimento antropogênico venha a ser reforçada na próxima década, muitas das propostas vindas dos “devoradores” parecem buscar as soluções mais caras possíveis para o problema (desde que eles possam gerenciar os recursos a serem investidos, obviamente). Além dos “devoradores”, alguns segmentos mais “à esquerda” entre os “aquecimentistas” incluem os “PILA´s verdes[2]” (uma dissidência do “chavismo” moderno) e os “marxistas-leninistas de ocasião”, que estão sempre a buscar novas justificativas para a adoção do ideário marxista-leninista, sendo esta a única chance de salvação da humanidade (agora a redução do CO2 é a bola da vez e “quem deve reduzir as emissões são somente eles, os capitalistas, e não nós”).
Até este ponto pode parecer que minha crítica tenha se concentrado apenas em um dos lados da questão e alguns já possam estar me taxando de “anti-aquecimentista”. Ledo engano, caro leitor. Eu apenas ainda não apresentei o outro extremo, o que farei a partir de agora. Para os “anti-aquecimentistas”, o aquecimento do nosso planeta verificado até 2005-2006 é fruto dos ciclos naturais de atividade solar e variações da temperatura dos oceanos e jamais da ação do homem. Afinal, sabemos que ocorreram grandes e pequenas Eras Glaciais no passado, seguidas de aquecimento, sem que existisse sequer um automóvel (ou um “capitalista selvagem”) na face da Terra para provocá-lo.
Além disso, sempre que possível, os membros deste grupo tratam de minar a credibilidade das medidas de temperatura feitas para demonstrar o aquecimento. Dizem que a maior parte das estações meteorológicas da rede meteorológica mundial foi “engolida” pelas cidades e o aumento de temperatura verificado é fruto da urbanização e não de efeitos de macro-escala (argumento provavelmente verdadeiro, ao menos parcialmente). até recentemente, argumentavam também que muitas destas estações encontravam-se abandonadas, sem manutenção ou calibração e que o último século é um período ínfimo se comparado com o histórico da ação humana e dos ciclos solares, para os quais não haveria uma rede de estações padrão OMM[3] para medir as temperaturas. O interessante é que com a constatação recente do resfriamento, a fúria dos “anti-aquecimentistas” contra o abandono das estações da rede e a insignificância do período monitorado por elas praticamente desapareceu. Afinal, a última coisa que pode acontecer agora é o pequeno resfriamento que vivenciamos perder a credibilidade.
Para esse grupo, o IPCC e o ICECAP são organizações malignas cujo principal objetivo é destruir a civilização capitalista global, impedindo que atual modelo de consumo de massa “leve a riqueza aos quatro cantos do planeta”. O grupo dos “anti-aquecimentistas” engloba, normalmente, pessoas que vão desde um perfil sociocêntrico-conservador-fundamentalista imbuído “da luta contra o mal” (representado por todos aqueles que não compartilham do mesmo senso de urgência em gerar benefício “aos seus”, mesmo que em detrimento das condições de vida “dos outros”) aos tipos reducionistas-científico-materialistas. Em comum, os extremos e os demais membros desse grupo têm a falta de visão sistêmica e o foco em benefícios materiais de curto prazo.
A maioria dos “anti-aquecimentistas” influentes globalmente conta com verbas dos setores mais conservadores das indústrias do petróleo, bélica e siderúrgica. Neste ponto, qualquer semelhança com o grupo que patrocinou e foi patrocinado pelos dois governos de George W. Bush não é mera coincidência. Aliás, foi o governo de Bush que se recusou a sequer sentar para discutir o protocolo de Kyoto. Se a cultura norte-americana sempre foi caracterizada pela incrível facilidade com que se gasta recursos, o domínio “neo-con” e “anti-aquecimentista” na Casa Branca na década de 2000 fez com que esta característica torna-se ainda mais pronunciada, a ponto de eu ter ouvido a seguinte argumentação de um funcionário de um hotel em Ohio em outubro de 2007, bem antes da crise: “Para que desligar o ar-condicionado enquanto o hóspede está fora se a energia é barata e nós podemos lhe propiciar este conforto para quando retornar? Além disso, gastar menos energia pode levar o país a uma recessão!”.
Talvez os argumentos dos “anti-aquecimentistas” possam sinalizar o grande problema da bandeira levantada pelos “aquecimentistas” bem intencionados, como é o caso de Al Gore, Fritjof Capra e outros: ao escolher as emissões de CO2 e sua relação com o aquecimento como causa fundamental para a não sustentabilidade do modelo econômico atual , os “aquecimentistas” atingiram o “core” do capitalismo global conservador, em função das relações entre redução de emissões e redução do crescimento econômico, sem, contudo, estarem totalmente embasados cientificamente (em função de todas as questões já citadas). Assim, apesar de todo o hype atual em torno do Aquecimento Global, uma série de anos mais frios em função dos ciclos solares pode colocar a perder todo o ganho em termos de conscientização e inovações relacionadas à preservação da vida futura na Terra.
Sim, caro leitor, em minha opinião, os “aquecimentistas” “atiraram no que viram” e “acertaram (apenas parcialmente) o que não viram”. Afinal, a busca pela redução das emissões de CO2 vem acompanhada da redução da poluição do ar (irrespirável na maioria das grandes cidades do mundo industrializado), da poluição da água (intragável na imensa maioria dos rios e oceanos) e do desmatamento (Alô Amazônia! Alô Brasil! Alô Lula!). Por mais que se tenha a convicção de que a existência ou não do aquecimento antropogênico não poderá ser comprovada em definitivo nos próximos 100 anos, creio que já deve ter ficado claro para a maioria dos leitores sinceros que o modelo econômico mundial atual, baseado no capitalismo de massa, não é sustentável. Aqueles mais afeitos a números podem fazer uma conta “de padeiro”: Qual deveria ser o PIB da China para que a mesma chegasse a ter a renda per capita de US$ 45,000 possuída pelos EUA hoje em dia? Quem chegou a algo entre US$ 15 tri e US$ 20 tri acertou! Isso significaria ter um PIB mais de 4 vezes o PIB americano atual. Pois bem, se para produzir bugigangas para alimentar o consumo desenfreado de 250 milhões de norte-americanos os chineses já conseguem destruir o meio ambiente a uma taxa jamais vista na história da humanidade, o que dizer se sua capacidade industrial tiver de ser multiplicada por 5 para atender o consumismo de 1 bilhão de chineses? Sim caro leitor, Malthus estava parcialmente certo, apenas errou na ordem de grandeza! A Terra jamais agüentaria 6 bilhões de consumidores globais, como os defensores do atual modelo econômico advogam!
Em minha opinião, o maior problema dos movimentos contra o aquecimento global é que, como medida para controle da devastação da natureza e da poluição ambiental, as emissões de carbono são extremamente ineficazes e conservadoras. Pense, por exemplo, em qual pode ser o efeito do alcance das metas de reduções de emissões de CO2 do Protocolo de Kyoto sobre o “Lixão do Pacífico”? Se você não sabe o que é o “Lixão do Pacífico”, convido-o a imaginar uma área maior que o Estado de Minas Gerais localizada entre o Havaí e a Califórnia, na qual as correntes marinhas concentraram 3,5 milhões de toneladas de lixo sólido, principalmente plástico. Se você respondeu que o efeito é praticamente nenhum, sua resposta está totalmente certa! Isso significa que cada vez mais, comer peixes do Pacífico significa de alguma forma comer plástico, com efeitos devastadores sobre nossa saúde, independente do nível de sucesso que as medidas contra o aquecimento global alcançarem!
Muito pior do que o aquecimento global é o “ressecamento local” das áreas agricultáveis do Brasil, por exemplo. Para sustentar nosso atual crescimento médio de 4% ao ano, estamos colocando a Floresta Amazônica na fogueira. O que dizer então das nossas metas de crescer 6% ao ano durante mais de uma década com este mesmo modelo econômico de “Potência Agrícola”, como alardeou a Times? Na verdade, quanto mais os produtores do Centro-oeste avançam Amazônia adentro para ampliar sua área para produção de carne de gado e soja, mais eles cavam a própria sepultura no médio prazo. Digo isto porque 9 entre 10 pesquisadores de clima e tempo, independente do fato de serem ideologicamente mais próximos dos “aquecimentistas” ou dos “anti-aquecimentistas” concordam que sem a Floresta Amazônica o Cerrado deixa de existir e se transforma num deserto, onde seria impossível cultivar soja. Talvez o máximo que se conseguiria, e a um custo “israelense”, seria produzir frutas para exportação. Neste cenário, os campos do Paraná e do Rio Grande do Sul teriam de deixar a produção de trigo e soja para se dedicar exclusivamente às uvas viníferas e às azeitonas, em virtude do clima subtropical local deixar de ser do tipo Chinês e passar a ser do tipo Mediterrâneo.
Para que essas mudanças climáticas devastadoras e possivelmente desvinculadas do aquecimento global ocorram, basta a Amazônia chegar num determinado ponto no qual seja rompido o equilíbrio do seu balanço hídrico e a conseqüente capacidade de se re-alimentar como Rain Forest ou Floresta Equatorial. Para Carlos Nobre, do INPE, esse ponto seria atingido com um desmatamento de 40% da área original. Se o leitor pegou novamente seu lápis e papel e fez outra conta de padeiro, deve ter chegado à conclusão de que é bem provável que o Brasil chegue a 2020 com sua meta de redução de desmatamento cumprida e o cerrado em processo de desertificação. Porque se formos esperar até 2020 para fazer as grandes reduções, o desmatamento cumulativo deverá ter superado em muito os 40% da área original da Floresta, o que mostra o quão absurda é a posição que o governo brasileiro pretende levar para a Conferência Mundial sobre o Clima das Nações Unidas, a ser realizada no final do ano em Copenhagem[4]. A própria China, sem dúvida o grande new player da poluição global, tem descartado novos projetos de ampliação da capacidade energética baseados em termelétricas a combustíveis fósseis e investido verdadeiras fortunas em usinas eólicas e solares. Entretanto, a questão aqui não é uma conta global de créditos de carbono e sim do balanço local de umidade. Será que o “ressecamento” na agricultura não é algo muito mais real que o aquecimento? Então vejamos:
- Um estudo recente da UFPR mostrou que apesar do aquecimento verificado em grande parte das cidades do Paraná e norte de Santa Catarina nos últimos 40 anos, são várias as cidades gaúchas e do sul de Santa Catarina que esfriaram no mesmo período;
- Ao invés das históricas duas boas safras de vinho por década na Serra Gaúcha (quando os índices de chuva no verão ficavam bem abaixo da média, favorecendo as viníferas), no período 1999-2008 tivemos nada menos que 6 safras fantásticas e apenas 2 safras pouco abaixo da média! Foram 6 verões muito secos na serra em 10 anos!
- Apesar de ter esfriado nos últimos 40 anos, a região de São Joaquim em Santa Catarina, famosa pelas nevascas com acumulações de neve superiores a 20 cm e permanência da paisagem branca por mais de 5 dias, não recebe neve deste porte desde a 1998, quando o Morro da Igreja ficou coberto com 40 cm de neve, que levou uma semana para derreter. Ou seja, frio ainda tem, mas a umidade para a neve está escasseando. São mais de dez anos ‘de jejum’ em termos de nevadas com grandes acumulações! No período 1971-2000, por exemplo, nevascas com mais de 20 cm de acumulação ocorreram, em média, ano sim, ano não, sendo que não passaram 5 anos sem que houvesse pelo menos um blizzard[5]! O que será da produção mundial de alimentos se o “ressecamento local” das áreas agrícolas do Brasil se confirmar? E se as áreas similares da China e de outros países em desenvolvimento também sofrerem de “ressecamentos locais” em função do desmatamento? Como enfrentar um “ressecamento global” causado pelo desmatamento? E se os principais rios mundiais ficarem completamente poluídos? E se os oceanos não permitirem mais a alimentação baseada na pesca e a produção economicamente viável de água potável tornar-se difícil? Qual seria o impacto dessas mudanças na viabilidade de se alimentar a população da Terra? Penso que a tragédia seria muito maior do que aquela propagada pela tese do aquecimento. E pelo que indicam os dados que apresentei, seria algo muito mais provável de ocorrer!
Portanto, caro leitor, ouso sugerir o seguinte: esqueça os extremos dos dois lados da questão! Ambos falam mentiras convenientes! A resposta sobre quem está certo e quem está errado na questão do aquecimento antropogênico continuará a ser respondida nos próximos anos com base na efetividade do cherry picking[6] promovido pelos cientistas de ambos os lados. Ou seja, ninguém conseguirá chegar a nenhuma conclusão definitiva. Mas até lá, pode ser tarde demais! Tenha em mente que de nada adianta uma operação fabril ser equilibrada em carbono se poluir um manancial ou devastar uma mata ciliar! A questão dos créditos de carbono é só a ponta do iceberg! Precisamos urgentemente de inovações voltadas a sustentabilidade! Portanto, se puder ir pedalando para o trabalho, vá! Mas se puder comprar um carro híbrido ou a hidrogênio para andar distâncias maiores com a família, melhor ainda. Mais efetivo que tudo isso é abandonar, como consumidor, as sacolas plásticas dos supermercados e não imprimir coisas à toa. Inovações como o Kindle, da Amazon, sinalizam que é possível reduzir drasticamente o consumo de árvores. Isso poderia abrir a oportunidade para projetos inéditos de reflorestamento em escala global, tornando possível a luta contra o “ressecamento” em larga escala. Aliás, ser um consumidor realmente “sustentável” implica em tentar consumir apenas o que é realmente necessário. E não se preocupe, pois isso não vai provocar recessão! A Europa está aí para nos mostrar que é possível continuar crescendo em meio a uma conscientização em massa pela redução do consumo[7]. Vamos deixar o aumento do consumo para os mais pobres! Se você tem uma condição de vida estável, não hesite em pagar um pouco mais por produtos que não agridam o ambiente e por inovações que preservem a vida na Terra. São as inovações baseadas na sustentabilidade que vão fazer emergir o novo capitalismo global, fundamentado não no consumo de massa, mas sim no consumo sustentável. Independentemente do fato de ser menos agressivo que os combustíveis fósseis em termos de emissões de carbono, nosso álcool, por exemplo, é um grande driver do desmatamento, além de competir com a agricultura voltada à alimentação. Quanto à gasolina e ao diesel, além de serem grandes emissores de CO2, são grandes envenenadores da atmosfera quando queimados pelos veículos, sem falar em seu processo produtivo. Portanto, lutemos para viabilizar os veículos elétricos e híbridos! Quanto mais formos exigentes em relação ao consumo sustentável, mais seremos drivers da sustentabilidade, tornando economicamente viáveis as inovações que as empresas desenvolvem focadas neste conceito.
Se por um lado, o hype do aquecimento global tem o mérito de atrair mais e mais pessoas para a causa ambiental, ele tem o demérito de municiá-los com indicadores equivocados. Insistir na guerra ao aquecimento antropogênico como a principal bandeira da gestão sustentável é dar margem a uma possível desmoralização dos seus defensores nos próximos anos, quando um pequeno ciclo natural de resfriamento poderá estar presente. No fundo, insistir em tal tese monológica é fortalecer os principais adversários da sustentabilidade, sejam eles ‘anti-aquecimentistas’ ou meros inimigos da felicidade de longo prazo da humanidade.
E então, já comprou sua sacola de compras ecológica?
[2] Versão “ecologicamente correta” do Perfeito Idiota Latino Americano, cuja visão de mundo começa com o centro do Universo sendo habitado pelo Satã Tio Sam, culpado de todas as mazelas do “sofrido povo da América Latina”. [3] Organização Meteorológica Mundial [4] O governo brasileiro, direcionado pelas posições dos ministros Dilma Rousseff e Celso Amorim, pretende manter o compromisso já assumido no Protocolo de Kyoto (que deve caducar em 2012) de reduzir o desmatamento da Amazônia em 80% até o 2020, limitando-se a um papel de coadjuvante na busca da sustentabilidade mundial. Não estamos falando em reduzir a área desmatada, reflorestando-a, e sim em continuar desmatando, só que menos do que fazíamos antes. Isso significa que os 20% de desmatamentos restantes são considerados legais. Considerando que a capacidade de fiscalização do governo tem sido abaixo da crítica, poderíamos dizer que a soja do Planalto Central tem chances de sobreviver no máximo até 2025. E então, será que é importante pesquisar café para o Planalto Catarinense? [5] Forte nevasca com mais de 20 cm de neve acumulada, acompanhada de ventos acima de 70 km/h. [6] Literalmente “coleta de cerejas”, que no jargão acadêmico significa a busca desesperada de evidências científicas que amparem uma hipótese que se deseje defender. [7] Obviamente, países já desenvolvidos de economia “saudável” devem crescer pouco, quando comparados aos países em desenvolvimento. A diferença justifica-se pela necessidade dos países em desenvolvimento de incluir novos consumidores no mercado, o que implica em aumento de demanda de itens básicos. Crescimento consistente acima de 3-4% ao ano em economias altamente desenvolvidas só pode resultar em desastres, como o a quebra dos EUA no final do ano passado.