Passadas as lamentações e comemorações dos resultados de Atenas 2004, bem como a desclassificação do Rio para a realização da Olimpíada de 2012, fica a pergunta: vale a pena o Brasil, um país com tantas carências sociais, onde esportistas usam rapadura como complemento alimentar, investir bilhões de dólares em um evento esportivo?
Do ponto de vista econômico, é importante notar que Atlanta 1996 e Sidney 2000 deram prejuízo, e as autoridades gregas estão apavoradas com o resultado financeiro de Atenas 2004. Imaginavam gastar US$ 3,5 bilhões e desembolsaram US$ 7 bilhões. O retorno financeiro esperado com a venda de ingressos e patrocinadores se transformou em um déficit superior a US$ 1,2 bilhão.
Se o prejuízo existe, qual interesse o Brasil pode ter ao despender bilhões na realização de uma olimpíada? Sabemos que ela promove esportes de pouco apelo popular, como pólo aquático ou badminton, que imagino o amigo leitor nem vislumbrar como é praticado. Por este e outros motivos, os estádios e ginásios gregos ficaram vazios. Imagine então o prejuízo em terras tupiniquins, onde até o futebol tem atraído pouco público.
O verdadeiro argumento olímpico hoje, para as cidades candidatas, é a mudança estrutural que ela possibilita. Isto é, as olimpíadas podem trazer benefícios de longo prazo pelo investimento em infra-estrutura viária, estádios, TI, portos e aeroportos que, talvez não fossem feitos de outra maneira. Seria, como atesta o prof. Marcos Kahtalian, a desculpa que todos nós precisávamos, com o apelo do potencial vexame mundial num eventual fracasso organizacional.
Para se ter uma idéia, a capital do país mais populoso do mundo promete um dos projetos mais espetaculares já realizados em toda a história olímpica. Um parque sobre uma reserva ambiental, com lago abastecido por água de reuso, monumentais obras esportivas, como o Centro Nacional de Natação e o Estádio Nacional. Uma brincadeira que vai custar cerca de US$ 3,2 bilhões apenas com as instalações esportivas. A cidade ainda deve receber mais US$ 24,2 bilhões em obras de infra-estrutura - linhas de trem, metrô, estradas, urbanização etc. Apenas em custos operacionais são mais US$ 2 bilhões e US$ 7 bilhões para tocar o megaprojeto ambiental.
A modernização a toque de caixa vem derrubando quarteirões e até bairros inteiros da cidade. Segundo um analista americano, Pequim está sofrendo uma transformação gigantesca, semelhante à realizada em Paris no século 19.
Bem, e no Brasil, o que poderia ser feito? Ora, nesse caso, a Olimpíada no Rio de Janeiro ou talvez em São Paulo, afora o civismo natural e o orgulho da cidade e do país, deixariam as tais marcas profundas na infra-estrutura; aí incluído os investimentos perenes em Turismo. Barcelona recebia cerca de 3,5 milhões de turistas em 1992, oito anos depois esse número saltou para 8,5 milhões (são US$ 5 bilhões adicionais anualmente, somente com turistas).
Comparado à Pequim, São Paulo, que concorreu com o Rio pela já frustrada candidatura brasileira aos Jogos de 2012, foi criticada por imaginar torrar US$ 2 bilhões em equipamentos esportivos e mais US$ 11 bilhões em infra-estrutura (são quase R$ 40 bilhões, ou 4 vezes o orçamento do governo federal em investimentos neste ano).
O projeto previa, entre outras mega-obras, a construção de 30 parques, duas linhas de metrô e 300 km de ciclovia, a despoluição dos rios Tietê, Tamanduateí e Pinheiros e das represas Billings e Guarapiranga, e a ampliação do aeroporto de Cumbica. Uma verdadeira faxina.
E a festa de abertura? Alguns ainda se preocupam de que é algo tão maravilhoso que somente países ricos teriam capacidade de realizar. Porém, em matéria de festa, quem já organiza o carnaval, não teria dificuldade de organizar uma olimpíada.
Quanto ao principal, claro, os esportes propriamente ditos, a maior delegação de todos os tempos em 2004 não significou muita coisa. Como sempre nossos sucessos, fora alguns esportes coletivos, como o vôlei, foram fruto do acaso, fortuito e individual, obra e graça de talento, esforço e dinheiro de amadores que sonharam e se dedicaram a esse sonho.
Assim, se a realização das Olimpíadas Brasil 2016 possibilitaria uma revolução na infra-estrutura das maiores cidades do país, promoveria algo ainda mais grandioso, uma revolução na educação, pois o esporte é talvez uma das melhores formas de educação. Aprendemos a ganhar, a perder, a treinar, a colaborar. Cresceria a nossa auto-estima e, fundamentalmente, poderia ser a mais profunda forma de inserção social da história brasileira, capaz de mudar o nefasto perfil de nossa sociedade.
Mas se o país quiser organizar a Brasil 2016 terá que parar de imaginar que a beleza da "cidade maravilhosa" ou a simpatia e alegria de seu povo bastam para contagiar os votos estrangeiros. É preciso se debruçar nas pranchetas e planejar como uma olimpíada nos ajudaria a resolver, meio que na marra, os problemas crônicos que até hoje não conseguimos solucionar. Agora é sonhar e mãos a obra: Olimpíadas Brasil 2016.