Início dos anos 60. A Coréia do Sul era um pequeno país asiático, saído de uma longa e devastadora guerra civil, mas que apesar de tudo, tinha muito em comum com o Brasil daquela época. Ambos apresentavam índices sociais e econômicos que os colocava entre o grupo dos países subdesenvolvidos, à época denominados países do 3º mundo.
Uma rápida olhada em alguns indicadores da época e veríamos que a taxa de analfabetismo dos dois países estava em torno de 35%, a mortalidade infantil era de 70 por 1000 nascimentos na Coréia e de 121 por mil nascimentos no Brasil. Se comparássemos o percentual dos jovens que cursava o 3º grau, ambos países tinham taxas muito baixas, em torno de 5%. Entretanto, do mesmo jeito que a Coréia levava vantagem na mortalidade infantil, o Brasil levava grande vantagem na renda per capita! A nossa era de US$ 1,800, contra US$ 900 da Coréia do Sul. O leitor a esta altura deve estar se perguntando porque esta “volta no tempo” para comparar nosso país com a Coréia do Sul. Realmente, uma breve vista aos dados atuais mostra claramente que os dois países são incomparáveis!
Pois então, vamos aos mesmos números nos dias de hoje! Atualmente o analfabetismo no Brasil ainda é de 13%, enquanto na Coréia ele foi erradicado. A mortalidade infantil na Coréia é de 5 por 1000 nascimentos, enquanto no Brasil continua acima de 25 por 1000 nascimentos, apesar das grandes melhorias verificadas em muitos estados nordestinos e a fantástica ação de programas não governamentais heróicos, como a Pastoral da Criança da Dona Zilda Arns. No que se refere à renda per capita, os dados são de deixar qualquer um estupefato! A da Coréia do Sul atinge hoje US$ 18,000, enquanto a do Brasil patina nos US$ 7,000. Por fim, 18% dos jovens brasileiros cursam hoje a universidade, enquanto a Coréia do Sul tem a melhor taxa do mundo, com 82% dos jovens nas escolas de ensino superior!
Inevitavelmente, vem a questão: o que fizemos de errado e eles de tão certo? Existem muitas explicações, algumas muito focadas em dados macroeconômicos, outras mais focadas na cultura e outras ainda na relação de forças da geopolítica mundial à época da guerra fria. Eu mesmo, defendi durante muito tempo a tese de que a principal justificativa para este fato estava no modelo de desenvolvimento econômico adotado por cada um dos países ao longo da década de 1960: enquanto o Brasil, onde já existia uma classe média com poder de compra razoável e uma indústria de base significativa, optara pelo modelo de Substituição de Importações, atraindo multinacionais para produzir aqui os bens de consumo que antes eram importados para atender às necessidades das classes média e alta, a Coréia do Sul optou pelo modelo de Plataforma de Exportações.
O interessante, é que a Coréia não tinha, à época, sequer a opção de escolher o modelo adotado pelo Brasil, Argentina e México. Não existia um mercado consumidor interno razoável, o que jamais conferiria às possíveis empresas multinacionais que decidissem produzir bens de consumo por lá a escala de produção necessária para tal. As multinacionais fizeram parcerias com empresas locais, constituindo plantas exportadoras para abastecer o primeiro mundo com aparelhos de som, televisores e automóveis de preço baixo, graças à mão-de-obra barata existente no país àquela época. O resto da história, a maioria já conhece: enquanto a indústria coreana empenhou-se em uma corrida frenética por aumentos de qualidade e produtividade, visando atender aos cada vez mais exigentes consumidores dos países desenvolvidos, as indústrias multinacionais instaladas no Brasil, importavam as linhas de produção de suas matrizes, visando lançar, como se fossem novos, alguns modelos de carros e eletrodomésticos já antiquados em seus mercados de origem, visando atender aos cada vez menos exigentes consumidores tupiniquins, isolados do resto do mundo em função da proibição de importação.
Sem dúvida, o erro na escolha do modelo de desenvolvimento econômico explica de forma satisfatória a grande diferença existente hoje. Entretanto, pode parecer que o modelo de Substituição de Importações sempre deu errado, o que não é verdade. Ao longo dos anos 1965-1975, a economia brasileira crescia muito mais rápido do que a coreana. O problema é que com o fim dos capitais externos abundantes e a mudança do padrão ouro para o padrão dólar, ocorridos no final da década de 1970, os modelos de crescimento voltados para a exportação conseguiram manter suas taxas de crescimento, em virtude da disponibilidade de moeda forte proveniente dos seus saldos comerciais. Por outro lado, os países que contraíam dívidas oficiais em dólar iniciaram um processo de quebradeira que inviabilizou o modelo de Substituição de Importações. Tudo bem que isso ocorreu em 1979, mas “a ficha só começou a cair” para o Brasil com mais de 10 anos de atraso! Depois disso, as barreiras comerciais caíram, veio a globalização, e ter um comércio exterior forte passou a ser vital no sentido de aumentar a produtividade interna da economia. E o Brasil insistia em reservas de mercado!
Apesar de todas estas evidências econômicas apresentadas, ouso dizer que o abismo existente hoje entre Coréia do Sul e Brasil poderia ser bem menor se nós tivéssemos tratado de forma distinta do que fizemos uma das conseqüências da escolha do modelo de desenvolvimento: o modelo educacional. Neste caso, não estou falando de gastar muito com educação! Aliás, em percentual do PIB, os governos de Brasil e Coréia do Sul estão ainda hoje entre os que mais gastam com educação no mundo. Por que tanta diferença, então? O problema é que o Brasil gasta muito mal em todos os sentidos! E isso tem muito a ver com o modelo de desenvolvimento econômico escolhido, mas mais ainda com a persistência em erros históricos em virtude de sua associação equivocada com ideologias moribundas!
Até a década de 1970, poderíamos dizer que, no geral, nosso ensino público nos três níveis (básico, médio e superior) era de razoável a bom, onde existia. Digo isso, pois a maior parte da população morava no campo, não tinha acesso às escolas e permanecia analfabeta ou semi-alfabetizada, não colaborando em nada para formar um país mais competitivo em termos globais. Entretanto, a qualidade não resistiu à pressão resultante do êxodo rural e à urbanização atropelada que fizemos. Nesse processo, os recursos públicos para os ensinos básico e médio foram congelados, enquanto os recursos para o ensino superior permaneceram crescendo até meados da década de 1980. Enquanto isso, a Coréia do Sul, onde todas as escolas eram inicialmente públicas, estabeleceu como prioridade o ensino básico e cobrava mensalidade dos que podiam pagar o ensino médio. No ensino superior, todos pagavam, a não ser em casos de extrema impossibilidade econômica.
Esse quadro criou uma situação peculiar para o Brasil: a partir da década de 1970, com a deterioração da qualidade dos ensinos básico e médio, 80% dos ingressantes nas universidades públicas “democraticamente” gratuitas eram filhos das classes média e alta, que podiam pagar os melhores colégios particulares no 1º e 2º graus e “sobreviver” à maratona dos vestibulares das federais, USP´s e UNICAMP´s! Portanto, enquanto a Coréia do Sul optava por fornecer a todos os seus cidadãos o melhor ensino básico gratuito, o Brasil optava por subsidiar o ensino de suas elites nas universidades cujos títulos representavam para o mercado a melhor formação acadêmica.
Uma olhada um pouco mais profunda na estrutura atual do ensino superior no Brasil mostra outra questão problemática que, com certeza, não será resolvida pela reforma de cunho corporativista proposta pelo governo federal: as universidades federais brasileiras apresentam o maior número de horas-aula pagas a professores por aluno no mundo! Com um título destes, percebe-se que a produtividade é algo que passa longe do nível de ensino priorizado por nosso país!
Alguns defensores da causa podem então argumentar: “Mas o valor da hora-aula está totalmente defasado, o que compensa o número de horas pagas”. Sim, é verdade! Entretanto, essa questão não é resolvida eqüitativamente. Professores horistas ganham uma quantidade de horas que equivale exatamente á sua carga de trabalho, sendo realmente mal remunerados. Por outro lado, titulares, adjuntos e assistentes concursados em algumas das federais chegam a ganhar 40 horas-aula semanais para ministrar 4 horas de aula em uma semana. Ou seja, se ganha pouco, mas se trabalha idem, o que gera um ciclo vicioso: os salários não aumentam porque os professores dão pouca aula e os professores dão pouca aula porque os salários não aumentam! “Mas e as horas com pesquisa?”, perguntaria um defensor da causa desavisado. Mesmo gastando quase o dobro (em US$, ou seja, em valores absolutos) do que o governo coreano gasta com o ensino superior público, o governo brasileiro não consegue fazer com que seus professores sejam benchmarking em pesquisa científica. Os professores coreanos produziram 50% mais artigos em revistas indexadas que os brasileiros em 2003! Isso sem falar nas patentes: em 2003, os cientistas brasileiros tiveram pouco mais de 200 patentes registradas, contra 3000 dos coreanos.
É lógico que faltou contar um detalhe: o salário dos professores sul coreanos, sejam eles de faculdades públicas ou privadas, é pago principalmente com mensalidades de alunos (universidade lá é paga, mesmo pública) e verbas de pesquisa, concedidas em sua maioria por empresas privadas! Mas e daí? A culpa é de nossos professores de universidades públicas? Claro que não! Meus colegas apenas buscam defender o lado deles! A culpa é do sistema perverso de “perenização” de nossas desigualdades sociais por meio do ensino superior gratuito, que tem de mudar urgentemente!
Quando nossos olhos se voltam para os ensinos básico e médio, corre-se o risco de nossa revolta aumentar! Na Coréia, mesmo nestes níveis, os professores das escolas públicas (agora sim, gratuitas) têm mestrado e às vezes doutorado, recebendo 50% de sua carga horária para preparar aulas e avaliações, pesquisar e avaliar seus alunos. No Brasil, se formos até os mais distantes rincões do sertão nordestino, por exemplo, podemos encontrar professores de ensino médio que não o concluíram e ganham não mais de R$ 200,00 por mês!
Entretanto, devemos reconhecer que muito tem sido feito recentemente pela educação básica. Sua universalização no governo anterior foi um fato importante, por exemplo. Entretanto, precisamos agora conseguir a qualidade excelente que existe na Coréia e outros países, cujos produtos vão competir com os nossos. Medidas como o programa “Bolsa Escola” (agora integrado ao “Bolsa Família”) , são bastante produtivas e mostram que existe saída, mas devem ser avaliadas permanentemente. Em 2003 tivemos um escândalo de proporções nacionais por conta da notícia de que as bolsas estavam sendo repassadas às famílias mesmo sem a presença das crianças na sala de aula. Logicamente, a falta de fiscalização, além de impedir o monitoramento dos resultados do programa para proposição de melhorias, dá margem à corrupção e aos desvios de verba. Aliás, é praxe entre “os esquerdistas” brasileiros o desprezo pela avaliação e pela gestão meritocrática. Afinal, o que falar do fim do “provão”?
Depois de tantos dados e tantas evidências de nossos erros passados e atuais no que se refere à educação, o leitor pode estar se perguntando o porquê do título do artigo. Na verdade, o novo paradigma competitivo é o paradigma dos ativos intangíveis, e isso vale tanto para a gestão de organizações privadas e públicas quanto para a gestão de países. Aliás, o crescimento de um país acontece justamente quando ocorre crescimento destas empresas. E aqui não estamos falando mais de auto-suficiência em petróleo ou minério de ferro. Tudo isso já teve sua importância, mas hoje não tem mais! Basta comparar o crescimento da riqueza das pessoas na Venezuela, Arábia Saudita e Indonésia, todos países ricos em recursos naturais, com as da Coréia do Sul, Taiwan e Israel, todos países pobres em recursos naturais, nos últimos 18 anos. Enquanto os três primeiros tiveram seu PIB per capita variando -16%, 8% e 157%, respectivamente, os três últimos apresentaram variações de 520%, 400% e 87%.
Se a nova maneira de gerar riqueza e bem estar para um povo está diretamente ligada à educação, o Brasil precisa fazer o seu dever de casa o mais rápido possível, sob pena de “perder o bonde” de mais um paradigma competitivo (lembrem-se que também “embarcamos atrasados” no bonde do paradigma industrial). E o começo desta corrida para “pegar o bonde” exige mudanças radicais nas políticas públicas para o setor. Entretanto, o atual governo não tem dado muitos motivos para animação no que se refere às mudanças nestas políticas. Apesar de sucessos com o “Bolsa Família”, a questão da redistribuição das verbas públicas para focar os ensinos básico e médio foi novamente colocada de lado, como se os recursos fossem irrestritos e estivéssemos produzindo superávits primários de 10% do PIB. Além disso, recomenda-se desconfiança quando se trata do discurso do governo com relação à sua prioridade à educação, pois é difícil confiar em quem diz que algo é importante mas não age de forma a confirmá-lo: se o próprio presidente Lula ficou mais de 10 anos como presidente do seu partido, com tempo de sobra para viajar pelo país, e não tomou a iniciativa de concluir o ensino médio e entrar para uma universidade, como pode um cidadão comum acreditar na sinceridade do discurso governamental. É fácil dizer que “não é preciso ter estudo para ser um bom presidente”. Bom, eu penso diferente! A presidência da república é o maior cargo da nação! Se não se precisa ter estudo para exercê-la, precisa-se para fazer o que?
Por fim, algumas novas evidências vêm mostrando que para a revolução da educação deslanchar, algumas outras “revoluções”, como a tributária e a previdenciária, terão de fazê-lo também. Isso, é lógico, se o Brasil não quiser continuar dependendo da exportação de soja, carne, aço e suco de laranja. Ocorre que a escolha dos maiores talentos pelas profissões segue uma lógica de marcado e mostra “a cara do país”. Enquanto na Coréia, os cursos mais procurados são os de Engenharia, no Brasil o novo campeão é o curso de Direito! Com tantos corruptos para serem defendidos, uma legislação tributária louca para ser “tangenciada” pelas empresas e cargos públicos que exigem pouco trabalho e gordos salários vitalícios integrais tendo seus concursos como base a formação em Direito, não se poderia esperar coisa diferente! Hoje, a Coréia produz carros, chips, e outros itens de alta tecnologia! O Brasil, enquanto isso produz juízes, auditores fiscais, advogados trabalhistas, “dribladores” do fisco e advogados de criminosos do colarinho branco! Nada contra os advogados! O problema é estrutural, é do país.
E então, a necessidade de mudança tendo em vista “pegar o bonde” é urgente ou não é? Respostas para jvbmc@terra.com.br !