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07/03/2006

Diga-me quem é o teu Deus e eu lhe direi quem és: um ensaio sobre a pobreza de espírito do mundo contemporâneo.

José Vicente Bandeira de Mello Cordeiro

O episódio da publicação das charges do Profeta Maomé por um jornal dinamarquês e sua republicação em vários outros jornais europeus, com a conseqüente e previsível reação dos fanáticos mulçumanos, vem fazendo com que alguns setores da imprensa ocidental digam estar havendo um “Choque de Civilizações”, entre o Islã e seus estados teocráticos e o ocidente secularizado e seus estados laicos. A princípio pode parecer uma guerra entre o atraso e a modernidade, mas este, caro leitor, é apenas um ponto de vista, que eu classificaria como dotado de forte miopia. Na onda do “Choque de Civilizações”, muito se têm ouvido sobre o fato de a fé religiosa ser o grande mal do mundo atual. Diz-se que a mesma é a causa de guerras e da morte de milhões de pessoas ao redor do globo nas últimas décadas. Assim, como forma de resolver este problema alguns “sábios seculares” têm proposto algo como “o fim da religião”.

Inicialmente, cabe a este simples articulista lembrar que as disputas religiosas, tanto nos dias atuais como ao longo da história, dificilmente podem ser apontadas como causas fundamentais (aquela que surge a partir de uma análise rigorosa de um problema, a partir do ciclo PDCA – Plan, Do, Check, Act – da Gestão de Processos) dos principais conflitos entre seres humanos. Por trás de pretextos de cunho religioso, causas econômicas predominaram na grande maioria das vezes. Entretanto, como os mentores das guerras não vão para a frente de batalha (como chegou a ocorrer há algum tempo atrás em algumas guerras históricas), os motivos religiosos foram e continuam sendo um bom argumento para “angariar” soldados, quer seja por meio do alistamento em exércitos oficiais ou em organizações terroristas.

Desta forma, pode-se concluir que a religião tem, realmente, um papel importante a desempenhar na ocorrência dos grandes conflitos armados (e conseqüentemente no terrorismo). Entretanto, será que a solução para este fato seria a expansão irrestrita da filosofia secular-materialista do mundo ocidental, “mais evoluído”, como insiste em defender a maioria dos articulistas quando se refere ao “Choque de Civilizações” entre o ocidente secularizado e o Islã religioso e ortodoxo?

A minha resposta é: absolutamente não!

As religiões, de forma geral, tentam apresentar respostas para as questões mais importantes da vida das pessoas, como “quem sou eu?” “de onde vim?”, “para onde vamos?” e “de que forma devemos nos relacionar com o mundo a nossa volta?”. O leitor mais atento perceberá que estas questões são as mesmas que motivam o estudo da filosofia, e este fato não é mera coincidência. Ocorre que, ao contrário da filosofia oriental (excluindo o Oriente Médio, logicamente), que se manteve atrelada permanentemente às religiões, a filosofia ocidental “desgarrou-se” da religião ocidental em virtude da necessidade do uso da razão e da experimentação, incompatíveis, até certo ponto com o dogma religioso de então. Como disse Hegel, a filosofia oriental não pode ser chamada de filosofia, pois não foi construída sobre uma evolução dialética baseada no uso da razão, deixando-se misturar aos mitos religiosos. Neste ponto, cabe uma observação: será a filosofia oriental realmente inválida por se vincular às religiões, ou serão as religiões ocidentais tão pouco impregnadas de racionalidade e experimentação a ponto de terem de ser “separadas” da filosofia?  A resposta a essa questão não será respondida neste artigo, pois certamente motivaria um novo texto. Entretanto, sabemos que as muitas práticas religiosas hinduístas, taoístas e, principalmente, budistas estão impregnadas do uso da razão e da experimentação.

Então, voltemos, pois, ao nosso tema de discussão: Por que a prática religiosa ocidental (e aqui incluo o Oriente Médio) acaba, de certa forma contribuindo para a existência de guerras e matança de seres humanos e para o atual estágio de impasse entre a civilização laica e o islamismo ortodoxo?

Uma das formas de responder a esta questão tem como ponto de partida a investigação dos diferentes “tipos” de Deus, algo que existe na base fundamental de cada religião e na crença de seus seguidores, e que de certa forma irá contribuir para o aspecto mais ou menos “belicista” destes.

Assim, podemos identificar três diferentes “tipos básicos” de Deus que, logicamente, apresentam algumas “subdivisões” internas que não serão aprofundadadas neste momento: I) o “Deus Único”, que é o “meu” Deus; II) o “Deus Intermitente”, quase inexistente; e  III) o “Deus Abrangente”, partindo de um único “princípio” criador, mas que pode ser representado por diferentes “Deuses” em diferentes culturas e regiões do globo.

O primeiro tipo de Deus é aquele comum a todo o ortodoxismo, principalmente o ocidental, seja ele judeu, cristão ou islâmico, que tem como base as chamadas religiões “monoteístas” e “reveladas”. Estas práticas religiosas permitiram aos povos que as adotaram no passado grandes avanços no campo da moral e da ética, principalmente quando comparadas às práticas pagãs praticadas anteriormente. As mesmas “funcionavam” muito bem em épocas nas quais não havia globalização, televisão a cabo e Internet, e cada povo ficava, de certa forma, fisicamente restrito a porções limitadas do globo. Entretanto, estas práticas também serviram como motivação para expansões “em nome de Deus”, como no caso das Cruzadas, e para grandes opressões sociais, como no caso da Idade Média Européia.

De certa forma, este tipo de religião predominou no Ocidente até o Renascimento, quando a ciência começou a derrubar um por um os principais dogmas católicos. Estes dogmas, “definidos por Deus”, mas em sua maioria “baixados” por bulas papais de cardeais cuja atuação à frente da Igreja não os aproxima muito daquilo que pode ser considerado um comportamento “santo”, motivaram inúmeras divisões na Igreja, dando origem à separação das Igrejas Ocidental e Oriental e em seguida às diversas formas de protestantismo.

Se o exemplo dado acima foi católico, o mesmo valeria para a fé protestante e para a fé judaica. Mesmo as separações e cisões não foram suficientes para manter a maioria dos fiéis no tipo I. O fato é que a evolução científica da Física Newtoniana fez com que, para a maioria dos praticantes destas religiões, a crença no seu Deus Único passasse a ser uma questão totalmente separada da racionalidade objetiva do mundo científico, levando estes a se aproximarem cada vez mais do Deus tipo II, ou seja o “Deus Intermitente”. Entretanto, os mais ortodoxos (no sentido de interpretação literal de escrituras) mantiveram-se “agarrados” aos seus “Deuses Únicos”, o que faz destes monoteístas de crença, politeístas de prática (uma vez que nem todos os seres humanos monoteístas acreditam no mesmo Deus). Nestes, predominam crenças do tipo “o Meu Deus é melhor do que o seu”, o que conduz a comportamentos infantis do ponto de vista racional (semelhante ao“o meu pirulito é maior do que o seu” das crianças), mas ao mesmo tempo perigosos do ponto de vista prático (por se trataram de adultos armados), independentemente de sua crença, nacionalidade ou região onde vive. Para estes fiéis, justiça-se a condenação à morte de outros seres humanos, desde que esta tenha por motivação a manutenção da honra do seu “Deus Único”.

O “Deus Intermitente”, o tipo II, surge no Ocidente com a industrialização e o avanço do capitalismo. Com tantas coisas para se preocupar (meu emprego, minha casa, meu carro novo, meu celular, meu tênis Nike, etc...), o ocidental começou a se secularizar e a relegar Deus apenas aos momentos mais difíceis, quer seja pela doença ou perda de entes queridos, quer seja pela perda de bens materiais ou do emprego. Uma vez resolvida a situação aflitiva, volta-se ao dia-a-dia de homo economicus e deixa-se nosso Deus “descansar”. Tanta intermitência acabou por abrir espaço para um concorrente, que se torna cada vez mais “onipresente”: o “Deus Mercado”. Esta alternância entre o “Deus Intermitente” e o “Deus Mercado” costuma ser a realidade da grande maioria dos norte-americanos, europeus e brasileiros. Percebe-se então, que o chamado “Choque de Civilizações”, ocorre sempre que pessoas que crêem em um determinado “Deus Único” entram em contato com aquelas que crêem em um outro “Deus Intermitente” (ou seja, o Deus que vem e vai e se reveza com o “Deus Mercado” para um grupo não é o mesmo “Deus Único” da crença do outro grupo). Portanto, nenhum problema em colocar em contato o “Deus Pai Todo Poderoso Intermitente” dos cristãos secularizados com o “Jeová Intermitente” dos judeus laicos. Afinal, para os dois grupos, o Deus quase onipresente é o “Deus Mercado”! Pior ainda é quando se coloca em contato remanescentes de diferentes “Deuses Únicos”. Neste caso, ao invés do “Choque de Civilizações”, é possível termos uma versão restrita e perigosa da Guerra Santa!

Os seguidores do “Deus Intermitente”, tipo II, não estariam jamais dispostos a matar em nome do seu Deus. Entretanto, estão dispostos a “matar um leão por dia” para subir na vida e angariar bens materiais, status e poder. Além do Leão, matam-se muitas outras espécies vegetais e animais, pois os seguidores do Deus tipo II normalmente não percebem que sua fúria materialista é a principal responsável pela deterioração da natureza e das condições futuras para a vida do homem sobre a Terra. Além disso, são responsáveis por constantes homicídios (ou suicídios) culposos, contra si próprios e seus familiares, pois tendem a sacrificar a saúde e o bem estar de curto prazo trabalhando e se sacrificando além da conta, visando a riqueza material de médio-longo prazo. Normalmente, os que juntam a maior quantidade de bens materiais tendem a gastá-los com hospitais e remédios para os mais diversos fins em virtude de sua saúde combalida a partir da meia-idade. 

 Por fim, temos o Deus tipo III. Neste caso, a pessoa assume que a civilização e a ciência mostraram que muito do que consta nas escrituras são estórias para tornar a religião mais bela e fácil de ser transmitida. Assume também que todos nós somos humanos e estamos, literalmente, no mesmo barco. Mantém sua fé religiosa e a incorpora ao seu dia-a-dia, mas respeita a fé dos demais por reconhecer que toda revelação é uma expressão de uma única Verdade, permeada pela cultura do local e época em que esta revelação ocorreu.  Nas religiões orientais (aqui eu excluo o Oriente Médio e os redutos islâmicos do oriente distante), este tipo de Deus já predomina há algum tempo. A crença em um único princípio criador já é bastante antiga. Entretanto, admite-se a representação deste princípio por meio de Deuses diferentes, sendo que alguns povos conseguem identificar mais de um Deus (sendo estes definidos como politeístas, de acordo com o eurocentrismo explícito da teologia ocidental), e outros apenas um Deus (os monoteístas).

Para aqueles que “possuem” um Deus tipo III, a existência de diferentes Deuses para diferentes povos seria fruto da interpretação cultural inevitável em qualquer experiência mística ou de revelação. Em qualquer dos dois casos, admite-se que, por mais divino que seja o Profeta ou o Salvador, sua interpretação da Verdade ocorreu em uma mente humana e foi articulada por meio de palavras em um determinado idioma, estando por isso permeada pela sua bagagem cultural (características do tempo e local onde viveu). Além disso, sabe-se que outros santos e profetas continuaram a escrever as escrituras após a revelação original, impregnando mais fatores culturais às escrituras originais. Aliás, para estes, o “idioma” de Deus não é o aramaico, o sânscrito, o grego, o latim e nem o hebraico, e sim o amor e a compaixão. Assim, as diferenças entre as religiões seriam um produto de culturas diferentes e não de Deuses diferentes. Admitir isso significa promover o diálogo com as demais religiões que não a sua própria e poder lutar junto com o resto do mundo globalizado por melhores condições de vida para toda a espécie humana no longo prazo.

Muitos religiosos da atualidade, entre eles o falecido Papa João Paulo II, os principais rabinos da religião Judaica, alguns clérigos mulçumanos (principalmente os radicados no ocidente), além das principais autoridades religiosas orientais, parecem ter optado por este caminho. Nele, de forma totalmente oposta ao propagado “fim da religião”, busca-se o ecumenismo e os pontos em comum, como forma de promover a paz entre os povos e buscar uma vida melhor para todos. Assume-se, portanto, que o ser humano possui naturalmente algo mais do que sua dimensão de homo economicus, e que este algo mais deve ser cultivado.

E o leitor, já decidiu que tipo de Deus é o seu?

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