Há livros certos na hora errada e livros errados na hora certa. Harry Potter parece fazer parte do segundo grupo. Milhares de leitores infanto-juvenis (alguns nem tanto...) estão vibrando com as novas aventuras do bruxo. E isso é bom para o capital, para a autora e principalmente para os leitores – uma nova geração que nunca havia se interessado por um livro agora vai às livrarias e isso é louvável.
Claro que os pais e professores, muitas vezes prefeririam que os livros fossem outros: os livros certos. Os Memórias Póstumas, Os Sertões, Os Hora da Estrela e tantos da mais alta literatura. Mas para um garoto de 14 anos, que viveu no shopping, aprendeu a brincar com Playstation e tem amigos no orkut; Vidas Secas é uma obra praticamente impenetrável. Harry Potter, o livro errado, é, no caso, a obra certa – e aqui livremente estou chamando um livro de certo ou errado, emitindo um juízo de valor – o que é discutível...
A insistência em obrigar os alunos a ler as “obras certas” matará a leitura. A Canção do Exílio destrói o leitor enquanto jovem. Espumas Flutuantes o naufragam. E Iracema é o golpe de misericórdia no hábito de leitura.
Existem exceções, é verdade. As almas sensíveis, aqueles jovens que lerão A Metamorfose e verão na novela uma metáfora de sua situação. Mas para essas exceções, não é preciso fazer nada, não é preciso política pública, nem prática pedagógica. Como diria Borges, um livro sempre acha seu leitor.
É por isso que acredito que para se chegar aos Irmãos Karamazov será preciso ler Harry Potter. É o livro errado para a hora certa ou ainda, o livro certo para aquela hora incerta. A hora em que a leitura vira um hábito infantil e depois adolescente. E o livro vira um objeto próximo. Pois não se vira leitor aos 30 anos. Nem com toda bruxaria.
Assim, ao contrário do que muitas vezes pensamos, o livro antes de ser fonte de conhecimento é fonte de prazer. Hoje então, deveria ser apenas isso: para que ler em um livro aquilo que eu acho no Google? Quem lê, lê por prazer. Como acreditava Montaigne: “só devemos ler os livros que nos são prazerosos”.
O saber, portanto, é um prazer. Mas trata-se de um prazer secundário ao primeiro prazer com as letras, ao amor pelo texto, ao sentimento de bem estar com a linguagem. E nada suscita mais a leitura que a curiosidade do conteúdo. Por isso o sucesso da aventura, da fantasia, do policial e dos quadrinhos: queremos saber como tudo acaba, o que acontece na próxima página. Ao virar cada folha, aprendemos a ver, comparar, analisar. Fabulamos nós mesmos, refazemos os passos do escritor, reorganizamos o pensamento. E isso ajuda a pensar, encanta, é uma magia.
O prazer do texto é, então, o prazer da descoberta individual, o desejo de se aventurar por outros mundos, o amor pela reflexão imaginativa. Nada melhor que Harry Potter para isso, pois sua matéria é a fábula. Como aprendemos na teoria, o sucesso de marketing é antes de tudo um sucesso de produto.
Evidentemente espera-se que algum dia o leitor de Harry Potter tenha outros interesses de leitura e não por menosprezar aquilo que leu, mas apenas porque estará descobrindo outros mundos. Os livros certos na hora certa.
Se o marketing proporciona alguns benefícios, que seja esse: o de popularizar um artigo. O livro, que como diz Millor, não enguiça. Não tem luzes, não faz barulho, não explode, não precisa ligar na tomada e dá pra ler deitado. Livro não tem senha. Torça para que seu filho leia Harry Potter, antes que você descubra que ele não lê mais nada.
MARCOS KAHTALIAN
MARKETING DE SERVIÇOS