Mérito não é fruto do acesso, mas o acesso favorece o mérito. Uns nascem privilegiados: terão acesso aos melhores bens e serviços de uma nação e como as nações são desiguais, aqueles que nasceram em nações que favorecem ainda mais o acesso terão mais facilidade na corrida da vida. Essa a razão da imigração e das cotas.
Aumentar o acesso é aumentar as chances de sucesso social. Trata-se de uma correlação, não de uma causalidade. Isto é, você pode ser imigrante e continuar lavando pratos e você pode nascer na elite e fracassar socialmente. Acontece bastante.
Todo esse blábláblá sobre meritocracia ignora esse pano de fundo. De modo geral a elite resiste à idéia de cotas por que vê o seu sucesso como fruto do mérito próprio, e o mérito descolado do acesso. Me esforcei para ter sucesso, mereço-o. Weber de botequim.
Não tenho nenhuma vergonha de reconhecer que tenho algum sucesso social como conseqüência tanto do acesso quanto do mérito, nem mais nem menos. Um ajudou o outro. Tive acesso à educação de qualidade, mas também tive mérito em aproveitá-la.
Normalmente aqueles que têm acesso reagem à idéia de cotas com culpa ou cinismo. Os dois lados estão errados. Ninguém pode ser culpado por ter nascido em berço esplêndido, porém ignorar o fato é cinismo. Se eu tivesse nascido no seio de uma família ilustre de Boston (um bostonian) provavelmente teria mais chances sociais do que hoje e do mesmo modo se eu tivesse nascido em uma família da África Subsaariana estaria, provavelmente, pior, isto é, se sobrevivesse à infância. Nascimento é destino.
Permitir o acesso é tentar equalizar as condições sociais. E não perpetuar a armadilha da desigualdade (“inequality trap) como disse o Banco Mundial em seu último relatório sobre a desigualdade mundial, citando explicitamente o caso Brasileiro. Estamos com quatro países africanos entre os cinco mais injustos do mundo. Como disse Nelson Rodrigues, subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos.
Isso posto, a meritocracia é e deve ser o combustível humano do capitalismo, a recompensa pelo esforço individual e coletivo. Isto é, a competição, a concorrência é essencial ao capitalismo e o protecionismo implica, quase sempre, redução da eficiência do sistema. Capitalismo sem risco é mau capitalismo. Contudo, aumentar as chances de acesso é aumentar a eficiência do capitalismo, não o contrário. O acesso aumenta a possibilidade de competição e a competição melhora o capitalismo. Acesso, portanto, não é custo, é investimento.
A questão não é, portanto, se deve existir o acesso. Proporcionar acesso é a única forma racional de reduzir a desigualdade estrutural. A discussão deve ser sobre de que forma franquear o acesso, isto é, como facilitar o sucesso social através de políticas públicas, como programas de cotas, bolsas e outros similares.
E nesse ponto, deveriam intervir os especialistas na questão, discutindo tecnicamente quais as melhores políticas de acesso, evitando, se possível, a ideologização do debate. Uma possibilidade, claro, improvável. Mas não impossível.
Marcos Kahtalian
Marketing de Serviços