A estartapização das coisas pode não ser o melhor caminho - Brain

Este site utiliza cookies para a análise de uso. Ao continuar navegando, você concorda com nossa Política de Privacidade.

Canal Brain

O maior portal de conteúdos sobre inteligência de mercado.

A estartapização das coisas pode não ser o melhor caminho

26/10/2020, 11:59

Por Rodrigo Corrêa de Barros

Milhões, bilhões… Todo mundo quer chegar ao Shangri-lá esbanjando saúde financeira e, se der, mental.

Mas criar uma startup – que parece ser o jeito mais curto de chegar à montanha de dinheiro – é um dos mais complexos desafios desde que Alan Turing deu os passos iniciais na ciência da computação.

O cenário se revela aparentemente favorável: os mercados mundiais parecem estar abertos para aquilo que é novo e que pode ser consumido rapidamente, (preferencialmente por web ou por aplicativos) e os jovens empreendedores implantam um modelo de empresa diferente, capaz de inovar o tempo todo – o termo da moda pós-pandemia será “se reinventar o tempo todo” – e faturar o coração e o cartão do consumidor com produtos e serviços que causam a sensação de serem vitais. 

É desse útero corporativo que surgem as boas e as más ideias que atraem os investidores mundo afora, Brasil incluso, claro!

Regadores eletrônicos, plantas componíveis e compactas de apartamentos com 19 m2 privativos, tapetes sonoros, pijamas feitos de tecidos inteligentes, aspiradores de pó automatizados, o carro elétrico feito com 30% de matéria prima reaproveitada, o perfume que tem lixo reciclado na embalagem, lingotes refeitos do alumínio das embalagens longa vida, as hamburguerias temáticas, dessalinizadores portáteis…

São alguns dos negócios nascidos sob a égide de um tempo de inovação real e sadia, no qual os jovens veem no que já existe algo a ser modificado, melhorado, redesenhado, remodelado ou, de preferência, que nasça algo ineditíssimo.

A psiquiatria moderna define o fenômeno e já o trata como um positivo estopim para o homem moderno redefinir seu entorno, buscando na necessidade da inovação contínua a motivação para sua própria existência. Ao criar algo cujo valor seja reconhecido (e que de preferência valha em dólares) o empreendedor deixa sua marca neste velho e prá lá de chato mundo. 

Mais do que plantar uma árvore, escrever um livro ou ter um filhote, os humanos agora desejam estartapizar as empresas, tornando ainda mais escalável o processo corporativo, levando para os celulares a inovação absolutamente irresistível.

Mas não é simples assim. Fonte notória de ansiedade e depressão, o mundo dos negócios agora ganha um perfil ainda mais dramático: ser mais escalável do que nunca! 

Escalar significa progredir no market share geometricamente, de modo que a receita do negócio o acompanhe e, dessa forma, se torne o Shangri-lá, o unicórnio.

Mas o horizonte perdido, do qual fala James Hilton em sua obra de 1933 é “cá mais pra baixo”, como diria o Seu Jorge…

A pressão pelo sucesso mais que triplicou, uma vez que a escalabilidade é uma equação extremamente complexa e dependente de uma variável difícil de controlar: o comportamento social.

Tomemos como exemplo a startup Yellow, que nos abandonou depois de ter viciado seus clientes nas facilidades do uso das bikes e dos patinetes. Foi uma perda real e estamos todos ressentidos com a marca! Se tivesse sido pensada também como uma empresa tradicional, certamente teriam descoberto em pesquisas prévias que os mercados se diferem por hábito, por humor, pela condição do tempo e temperatura, pela logística, pelo relevo e pelo comportamento do usuário na posse do bem. Todos aspectos fundamentais em sua tática operacional.

Cada vez mais, empresas como Quinto andar, Uber, MadeiraMadeira, 99 Táxi, IFood, Mercado Livre, entre outras protagonistas em seus segmentos, descobrem que no Brasil, um ainda experimental modelo híbrido tem se consolidado como sistema de sucesso permitindo os contrapesos para que prossigam escalando em ótima velocidade, mesmo em meio à crise.

Chega-se à conclusão que no modelo econômico atual não dá para explodir o crescimento o tempo inteiro, muito menos prometer isso aos investidores.

Não posso deixar de lembrar do amigo Alexi Ramos, então figura de proa da Tetra Pak, nos anos 1994 – auge da reengenharia – quando, lendo a tradicional Folha de S. Paulo, descobriu que o Google tinha inaugurado uma sede com mesas de pingue pongue, pinballs espalhados pelos cantos e um colorido escorregador que descia de um andar a outro. Depois de debater conosco sobre o assunto, profetizou: “Em cinco anos essa moçada vai descobrir que isso tudo é bobagem, que eles têm na mão uma empresa que pode bater a Yahoo e que precisa de gente como nós produzindo para se tornar líder”.

Desde então sabemos como a Google lutou como empresa tradicional e inovou como startup para chegar ao ápice. 

E a sede temática ainda está em Montain View, mas é só para o turista ver. 

*A opinião do autor não reflete necessariamente a visão da Brain Inteligência Estratégica.

Veja também:

Quarta onda: a morte das lojas de rua

Comércios de rua foram alguns dos estabelecimentos mais afetados pela pandemia. O que será deles no futuro?

Na teoria, a prática é outra?

Por Letícia Tiboni Muitas vezes percebo nas pessoas uma certa dificuldade em conseguir fazer um link do que se estuda…

A Outorga Onerosa e o Mercado Imobiliário: Herói ou Vilão?

Por Orlando Ribeiro No artigo anterior, A Política Urbana e o Mercado Imobiliário, vimos que a Constituição Federal (BRASIL, 1988)…