A gentrificação no Brasil - Brain

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Por Erick Takada

A década de 1990 foi marcada pela ampla expansão da internet, que vivia sua popularização em função da invenção dos chamados browsers ou navegadores em bom português. Este período ficou conhecido como o “boom da internet”.

É nesse contexto que entra o Vale do Silício, denominação dada à região da Califórnia onde se estabeleceu um grande número de empresas de tecnologia, fato que, a propósito, rendeu o tal apelido do local, já que o silício é o material usado para a produção dos circuitos integrados.

Neste período houve uma explosão de novos cargos e profissões, atraindo profissionais de alta performance do mundo inteiro para Califórnia. Essa alta demanda por moradia gerou conflitos de forma generalizada entre senhorios e os inquilinos, parceiros de longa data.

Com as altas remunerações dos recém-chegados, logo a moradia começou a se tornar inviável para o dito trabalhador “convencional”, colocando cidades como Los Angeles e São Francisco entre as 10 cidades com mais sem teto dos Estados Unidos em 2020, segundo a Forbes.

Sem teto

Esse fenômeno é o chamado de gentrificação, uma expressão tratada de maneira semelhante por Karl Marx no século XIX e retomada pelo geógrafo Neil Smith, no ensaio “The new urban frontiers: gentrification and the revanchist city” ou “As novas fronteiras urbanas: a gentrificação e a cidade revanchista”.

Em suma, gentrificação é um processo de transformação urbana através da alteração de grupos sociais que ocupam um local da cidade, onde os moradores de renda mais baixa são deslocados forçadamente pelos mais ricos, através da elevação do custo de vida de outrora.

A própria etimologia da palavra denota esta substituição: o termo em inglês gentrification deriva do francês genterise que remete àqueles que pertencem às castas mais altas da sociedade, algo como fidalgo em português.

Aqui no Brasil, temos um exemplo prático no cobiçado Vidigal, comunidade no Rio de Janeiro. Em função de estar localizado em um ponto nobre da cidade, junto ao bairro do Leblon e com uma vista exuberante, depois da pacificação em 2012 rapidamente o metro quadrado no Vidigal se valorizou, atraindo turistas e moradores da elite e tornando a moradia inacessível aos antigos habitantes do local.

Vidigal Rio de Janeiro

Guardadas as proporções, a gentrificação também vem sendo notada em algumas cidades de médio porte do nosso país. O aumento do preço da terra e a pressão do custo da construção têm dificultado para os empreendedores continuar abastecendo o segmento econômico.

Um exemplo claro é Curitiba onde, no final de 2010, a participação nos lançamentos de unidades habitacionais do segmento econômico era de 5.954, o que representava 27% do mercado ofertado. No início do terceiro trimestre de 2021, este número caiu para 2.625 unidades, ou 12,8% dos lançamentos na cidade, segundo a Brain. Como comparativo, segundo a consultoria, a representação do segmento no Brasil neste mesmo período foi de 47,6%.

Ademais, a evidente redução da renda após a pandemia vem assolando o trabalhador brasileiro. Segundo o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, IBRE-FGV, devido a alguns fatores como a inflação e a desvalorização do Real, a redução nominal da renda deu-se na ordem de 10%, comparando o primeiro trimestre de 2021 ante 2020.

Moeda e dinheiro Real

Agora, a baixa oferta atrelada à depreciação da renda são fatores que deixam a casa própria cada vez mais distante para a base da pirâmide social em cidades como Curitiba. Nestes centros urbanos, as classes mais baixas acabam sendo espraiadas para as cidades metropolitanas ou se aglomerando em ocupações irregulares.

Mesmo com os programas subsidiados pelo governo como o antigo Minha Casa Minha Vida, atual Casa Verde e Amarela, a conta para o empreendedor não fecha e a população menos abastada vê-se obrigada a morar cada vez mais longe dos centros das cidades. Isto implica em uma série de problemas e desarranjos, como a necessidade de uma ainda mais ampla rede de transporte público.

A saída para mitigar esse problema de alguma forma pode estar nas mãos do poder público. A criação de Zonas Especiais de Interesse Social onde há incentivos urbanísticos para construção de moradias populares, como, por exemplo, a permissão da verticalização e do adensamento.

Tais medidas tendem a minorar a participação do valor do terreno no preço do imóvel, permitindo enquadrar unidades mais acessíveis ao público de menor poder aquisitivo.

Apesar das inúmeras críticas ao novo plano diretor da cidade de São Paulo, o município parece ter encontrado um caminho. Segundo a Brain, a participação do segmento econômico representava 28,3% do total das unidades lançadas na cidade, ao final do segundo trimestre deste ano. Esse número é substancialmente maior que o de Curitiba, mesmo onde o preço da terra é mais caro.

Prédio em construção

Em meio a essa salada toda, fica clara a necessidade da legislação local conversar com as alternativas de funding criadas pela União, sendo o principal deles o Casa Verde e Amarela. Somente assim os bons frutos dos programas de subsídio poderão ser colhidos.

Cabe ainda salientar que nosso país é recordista na má distribuição da renda, sendo o segundo colocado no relatório da Organização das Nações Unidas, a ONU, período ainda anterior à pandemia, onde 1% da população mais rica detinha 28,3% da riqueza, enquanto apenas 10,4% estava na mão dos 40% mais pobres.

Neste cenário econômico, muito mais do que o esforço dos empreendedores, a ação governamental é crucial para criar e manter estruturas para os menos favorecidos e assim mitigar o deslocamento, o principal e mais evidente efeito da gentrificação.

*O conteúdo expresso neste texto não necessariamente reflete a opinião da Brain.

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