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Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro

03/03/2021, 16:21

Por Guilherme Werner

Não me levem a mal! Sei que pode ser um título insólito, sobretudo para quem viveu em um mercado que, no meio do caos, conseguiu bater recordes históricos ao longo de 2020. Mas é inevitável, ainda mais para um musicista como eu, correlacionar situações cotidianas com obras artísticas. Sorte a nossa que existem canções e compositores atemporais, como Belchior, que eternizou o verso do repentista paraibano Zé Limeira – poeta do absurdo – no memorável álbum “Alucinação” (1976), do qual me aproprio neste artigo para ilustrar o que imagino passarmos atualmente na indústria imobiliária brasileira.

Em conversas com centenas de empreendedores imobiliários, de diferentes portes e regiões do país, com raras exceções, há plena concordância de que o último ano foi surpreendentemente positivo para o setor, seja pela maior facilidade no acesso ao crédito imobiliário, no aumento expressivo do apetite dos investidores ou na possível antecipação de intenção de compra daqueles que reviveram os seus lares e descobriram novas necessidades (e, pasmem, elas nem sempre estão ligadas a querer um cômodo exclusivo para o trabalho remoto!). Não à toa, os dados dos Indicadores Imobiliários Nacionais, produzidos pela Brain e recentemente divulgados em conjunto pelo SENAI/CBIC, mostram um aumento de 9,8% no volume de apartamentos novos vendidos ao longo do último ano, totalizando aproximadamente 190 mil imóveis, com Valor Geral de Vendas em torno de 75 bilhões. Hoje, mantida a mesma velocidade de venda – e caso não houvessem lançamentos ao longo deste ano – o estoque de lançamentos verticais no Brasil (que ao final de dezembro somava 151,7 mil unidades), seria escoado em pouco mais de 10 meses. Algo animador e que nos traz um sentimento genuíno de que as coisas estão indo bem.

Por outro lado, apesar do ótimo sentimento de chegarmos ao final do último ano com metas batidas e boas perspectivas para o mercado ao longo de 2021, também é unânime entre os players do setor que 2020 foi o ano mais irresoluto e desafiador da história recente da humanidade. Fora a inimaginável crise sanitária e econômica que assolou o planeta, tivemos pré anúncios de Guerra entre os EUA e Irã, assistimos aberrações como a morte de George Floyd ou do rapaz no supermercado em Porto Alegre, além de acumularmos perdas expressivas no esporte: de Don Diego à Kobe Bryant. Isso sem contar outros obstáculos que nos fizeram tropeçar ao longo de 2020: de uma turbulenta eleição presidencial americana às queimadas no Pantanal. Talvez não tenha sido tão fácil assim.

Portrait of Young couple looking at the blueprints of their new home

De fato, um ano ambíguo, que constantemente nos assustou com sua volatilidade em trazer, em um mesmo dia, notícias animadoras ou desafiadoras, e que colocou à prova a capacidade de adaptabilidade do empreendedor imobiliário (este, otimista por natureza – que bom!), que, em determinados momentos, não sabia se poderia abrir o seu plantão de vendas ou até mesmo manter o seu cronograma de obras com a mesma previsibilidade. Talvez nunca tenha sido tão importante o empresariado de nosso país ter em seu DNA o famoso “jeitinho brasileiro” – no bom sentido – nas tomadas de decisão de sua empresa. Não havia tempo para planejamentos milimetricamente calculados em um país onde, parafraseando a BandNews, “em 20 minutos, tudo podia mudar”.

Dito isso, iniciamos um 2021 que tende a ser multifacetado: da grande preocupação pelo aumento nos custos de construção e o seu grande impacto no mercado econômico aos possíveis novos recordes de vendas e lançamentos de várias corporações. Espera-se, entretanto, perspectivas mais estáveis (ou, melhor, menos instáveis) daquelas vividas no início de 2020, em um mundo ainda sem máscara. Mas, para não dizer que não falei das flores, além da esperança de uma vacinação em massa que, apesar dos tropeços, parece estar cada vez mais próxima, vários fatores nos levam a crer em um ano menos turbulento:

– Estoque equilibrado nos grandes centros urbanos brasileiros – Com algumas exceções, o mercado brasileiro de incorporação residencial vive um momento de pleno equilíbrio entre oferta atual vs oferta lançada. Várias regiões do país, de Belo Horizonte à Joinville, trabalhavam, ao final do último dezembro, nos menores patamares históricos de estoque vistos na cidade. Isso, além de gerar claras oportunidades para a colocação de novos produtos, pode ressaltar o sentimento de escassez em determinados níveis de produto, podendo impulsionar ainda mais a intenção de compra de uma região;

– Manutenção do apetite do investidor – Mesmo em um cenário ainda mais incerto quanto aos patamares da taxa de juros básica ao longo do ano, ainda se vê um grande apetite de investidores em alocar recursos em ativos reais, sobretudo nos imobiliários. Do compacto na zona sul paulistana ao lote de 60 mil no interior do Mato Grosso, temos visto em dezenas de pesquisas primárias a estabilização na pretensão de compra deste perfil de público;

– Crédito imobiliário novamente em ascendência – Sobretudo para recursos provenientes do SBPE, a dúvida é quase zero de que 2021 apresentará resultados superiores à 2020 – que já foi muito bom. Sabe-se, também, que esta é a grande locomotiva de nosso mercado, ainda mais para produto Standard (popularmente conhecido como “faixa 4”), que foi o grande beneficiado pela queda nos juros imobiliários, vendo o seu universo potencial comprador aumentar.

 Por fim, talvez o melhor caminho para o empreendedor imobiliário ao longo deste 2021, tal como fez o executivo federal, seja acenar ao “centrão”, não pautando suas expectativas nem em cenários tão otimistas, tanto menos em hipóteses muito pessimistas. O desafio, portanto, é de procurar o equilíbrio nas ações, não perdendo o timing nas boas oportunidades e nem ser seduzido pelo canto da sereia ou pelo efeito manada de se lançar aquilo que todo mundo está lançando e indo bem. Quem sabe assim, ao final do ano, possamos nos considerar um “Sujeito de Sorte”, tal como o compositor, na inesquecível canção que me ajudou a titular este artigo.

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