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O cenário econômico nacional e a Construção Civil

22/10/2020, 11:23

Por Ieda Maria Pereira Vasconcelos

As estimativas mais pessimistas para a economia brasileira, realizadas no auge da crise provocada pela pandemia do novo coronavírus, estão ficando para trás. Instituições financeiras, consultorias, analistas e até mesmo organismos internacionais estão refazendo suas projeções para o país.  O Fundo Monetário Internacional (FMI), que estimou retração de 9,1% para o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, em junho, agora aguarda queda de 5,8%. O Banco Mundial, que em junho projetou recuo de 8%, agora espera retração de 5,4%. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é outra que melhorou as projeções para o PIB nacional. No fim do primeiro semestre as expectativas variavam de -7,4% (cenário mais otimista) a -9,1% (cenário mais pessimista). Agora a nova projeção é de -6,5%. 

À medida que as atividades foram sendo retomadas, a economia começou a reagir e iniciou um processo de recuperação que superou as expectativas iniciais. Medidas como linhas de crédito para as empresas, o pagamento do auxílio emergencial para pessoas físicas e o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e Renda são algumas iniciativas que contribuíram pra suavizar o impacto econômico da crise sanitária. 

 Vários indicadores demonstram o processo de retomada.  A produção da indústria, conforme pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vem registrando resultados positivos há quatro meses consecutivos, depois da queda de 27% em março e abril. O comércio varejista segue o mesmo caminho. Em agosto, conforme dados do IBGE, cresceu 3,4% em relação a julho. Também foi a quarta alta consecutiva. Com isso, o setor alcançou o maior patamar de vendas desde 2000 e ficou 2,6% acima do recorde alcançado em outubro de 2014. O setor de serviços, fortemente atingido pelas medidas de distanciamento social segue mais lento, mas também registra incremento de atividades. O volume de serviços cresceu 2,9% em agosto, em relação a julho. Foi a terceira alta seguida, acumulando crescimento de 11,2% no período. Entretanto, esse resultado ainda não foi suficiente para recuperar as perdas de 19,8% entre fevereiro e maio. O Indicador de Atividade Econômica – IBC-Br, calculado e divulgado pelo Banco Central, demonstra que a economia nacional cresceu 1,06% em agosto em relação ao mês anterior. Desde maio, o referido indicador vem registrando números positivos.  Estes resultados consolidam, de forma inquestionável, o processo de recuperação da economia nacional.

Índice de Atividade Econômica jan/19 - ago/20. Fonte: Banco Central do Brasil.

Mas é nos resultados do mercado de trabalho formal, ou seja, com carteira assinada, que os efeitos da melhora da economia ficam ainda mais evidentes. Em agosto, conforme os dados da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, o Brasil registrou um saldo positivo de 249.388 novas vagas, resultado da diferença entre 1,239 admissões e 990 mil demissões. Foi o segundo mês consecutivo de saldo positivo. Desagregando estes resultados, o desempenho da Construção Civil chama a atenção. O setor, que foi considerado atividade essencial, e por isso manteve o seu funcionamento durante o auge da crise, está contribuindo muito, especialmente para a retomada econômica nacional.

Neste contexto, é necessário ressaltar que em agosto o Brasil possuía 37,96 milhões de trabalhadores com carteira assinada. A Construção Civil era responsável por 2,225 milhões de vagas, ou seja, 5,86% do total.  Apesar disso, o setor respondeu por mais de 20% dos postos de trabalho gerados no oitavo mês do ano: 50.489. Todos os segmentos da Construção apresentaram resultados positivos: construção de edifícios, obras de infraestrutura e serviços especializados para a Construção.

Uma análise mais detalhada dos dados do Caged, no período de janeiro a agosto, permite verificar que o mercado de trabalho da Construção Civil é destaque em 18 estados. Em 12 deles o setor lidera a recuperação do mercado de trabalho (Roraima, Pará, Amapá, Tocantins, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná e também no Distrito Federal), e em outros seis ocupa a segunda posição (Acre, Amazonas, Maranhão, São Paulo, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul). Portanto, o incremento das atividades da Construção Civil não está acontecendo de forma localizada e sim de forma mais generalizada em todo o País. Isso significa que o setor está exercendo, mais uma vez, um papel estratégico na retomada da economia nacional. 

Saldo de vagas geradas no Brasil por setor de atividade - acumulado janeiro a agosto/20. Fonte: Novo Caged - Secretaria Especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia.

O desempenho do mercado imobiliário é um dos fatores que contribuem para os resultados mais positivos do setor. Neste sentido, ressalta-se o incremento do financiamento habitacional com recursos da caderneta de poupança e os juros baixos.  Conforme os dados divulgados pela Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), o financiamento imobiliário com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) totalizou R$11,7 bilhões em agosto/20, o que correspondeu a um incremento de 8,3% em relação ao mês anterior e de 74,7% em relação a igual mês do ano 2019. Além disso, é preciso destacar que o valor financiado no oitavo mês do ano foi o maior na série histórica iniciada em julho de 1994 (em termos nominais), ou seja, dos últimos 26 anos.

Unidades Financiadas e Valores Financiados (R$ milhões) com recursos do SBPE. Fonte: Associação Brasileira de Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).

Ainda é necessário ressaltar que os juros baixos também contribuem para a movimentação do segmento imobiliário através da migração de investimentos mais conservadores para o mercado de imóveis. 

O segmento imobiliário iniciou o segundo semestre de 2020 com um baixo estoque de novas unidades disponíveis para comercialização. Isso significa uma grande janela de oportunidades para o setor nos próximos meses.  No primeiro semestre do ano, as vendas ficaram praticamente estáveis, com ligeira queda de 2% em relação a igual período do ano anterior. Já os lançamentos registraram retração de 43,9%.  Ou seja, mesmo num contexto de dificuldades da economia, as vendas ficaram praticamente estáveis. Naturalmente os lançamentos foram postergados no primeiro momento da crise.  Todavia, espera-se uma recuperação dos lançamentos neste segundo semestre, o que pode vir a dinamizar ainda mais as vendas imobiliárias e o mercado de trabalho. 

As atividades da Construção estão em expansão e o setor é um dos líderes da recuperação do mercado de trabalho do País. Ressalta-se que o ritmo de suas atividades precisa ser mantido.  Neste sentido, iniciativas como as anunciadas recentemente pela Caixa Econômica Federal, como a redução da taxa de juros na linha de crédito do financiamento habitacional, a prorrogação até o fim do ano da possibilidade de carência para o início do pagamento das parcelas dos novos contratos imobiliários, são sempre bem vindas. 

Por outro lado, é preciso destacar que o setor enfrenta desafios, como o incremento dos seus custos e a possibilidade do fim da desoneração da folha de pagamentos.  Num cenário ainda caracterizado por incertezas com a pandemia provocada pelo novo Coronavírus e com a questão fiscal em evidência, o protagonismo da Construção Civil como segmento capaz de liderar a recuperação da economia fica cada vez mais claro. Em função disso, o setor precisa, necessariamente, estar na agenda de prioridades do País.

*A opinião do autor não reflete necessariamente a visão da Brain Inteligência Estratégica.

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